Brasil de Fato

Uma Visão Popular do Brasil e do Mundo

Cancún, a montanha pariu um rato!

Teremos ainda um longo caminho pela frente para podermos enfrentar os graves problemas de desequilíbrios ambientais


15/12/2010


Editorial ed. 407

Durante quinze dias, representantes de governos de 140 países se reuniram nos hotéis mais luxuosos do nosso continente, no balneário de Cancún (México), para debater os problemas da crise climática do planeta. Terminada a reunião, à parte o conforto nababesco e o isolamento que a polícia mexicana impôs para que nenhuma manifestação popular chegasse a menos de 12 km, o fracasso foi evidente. Nenhuma resolução importante foi tomada pelos governos.

A própria imprensa burguesa, ao longo do evento, relativizou sua importância, e não deu a cobertura que havia dado na conferência similar realizada no ano passado em Copenhague. E a imensa maioria dos governos enviou representações ministeriais, com presença insignificante de presidentes. Ainda tiveram a petulância de anunciar que, como nada de importante se decidiu, as conversações continuarão em dezembro de 2011, na próxima conferência, a realizar-se na África do Sul.

Mas, afinal, por que essas conferências governamentais não conseguem ter nenhum resultado prático? Certamente, há muitas razões. Mas a principal é que existe uma contradição política posta hoje no mundo, que gerou uma dicotomia entre o poder econômico e o poder político internacional.

O poder econômico é exercido em todo planeta pelas 500 maiores empresas transnacionais, que controlam 53% de toda riqueza produzida, apesar de darem emprego para apenas 8% da mão de obra empregada no mundo. Essas empresas são as responsáveis pela crise climática, ao se apoderarem da natureza, ao utilizarem fontes energéticas poluidoras e ao buscarem apenas o lucro máximo – e da forma mais irresponsável possível. Por exemplo, enquanto todos os especialistas de saúde pública advertem que a poluição do uso do transporte individual nas grandes cidades é o principal causador de doenças, mortes e péssimas condições do meio ambiente para bilhões de seres humanos que se aglomeram nessas megalópoles, a indústria automobilística mundial, controlada por não mais de 15 empresas, anuncia novas fábricas, novos créditos, novos veículos!

Temos o poder político exercido por governos nacionais, neoliberais, totalmente servis a esse poder econômico, e que, raramente, representam os verdadeiros interesses de suas populações. Não querem legislar sobre o poder econômico.

Por outro lado, não existe um poder político internacional que consiga ser representativo da humanidade e que possa colocar regras e freios ao crescimento insano das agressões do poder econômico sobre o meio ambiente.

Mesmo quando temos governos nacionais mais sensíveis, como o caso da Bolívia, dos governos da Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas) ou de pequenos países do Pacífico, esses governos são insuficientes, pois as regras para o meio ambiente devem ser para todo mundo, o planeta é um só e funciona em equilíbrio global. Assim, uma agressão ao meio ambiente, no Brasil, na Austrália ou na China, de certa forma acaba trazendo consequências para todos os seres vivos que habitam esse planeta, em toda parte.

Portanto, em primeiro lugar, será necessário resolver essa contradição: enquanto não tivermos um poder político que tenha força suficiente para, em nome da população, impor condicionantes ao poder econômico, essas conferências serão apenas teatro para enganar alguns incautos.

Em segundo lugar, os analistas e cientistas sérios denunciam que os desequilíbrios ambientais e a crise climática que estamos vivendo têm como causa fundamental o modo de vida imposto pelo consumismo irresponsável da produção capitalista, que produz incansavelmente mercadorias para serem vendidas, não importa suas consequências. Portanto temos que refletir sobre o modo de vida que nos é imposto.

Em terceiro lugar, é urgente que haja campanhas de conscientização de toda população sobre a gravidade dessa crise climática, sobre a vida humana e a vida de todo planeta. Em geral, as pessoas sofrem, muitos pagam com a vida, mas há uma alienação geral, provocada pelo monopólio dos meios de comunicação da burguesia, que ilude as pessoas com o consumismo e com práticas agressoras ao meio ambiente.

Daí que movimentos sociais de todo mundo, ambientalistas, Via Campesina, Marcha Mundial das Mulheres estejam empenhados, junto com alguns governos progressistas, a desenvolver durante 2011 uma grande consulta mundial sobre a crise climática, que terá como objetivo principal conscientizar a população em todo mundo sobre a gravidade dessa crise.

Esse processo de consulta mundial se baseará em cinco temas, já acordados numa conferência realizada em abril deste ano em Cochabamba, na Bolívia, e está relacionado com o modelo capitalista de superprodução; o uso abusivo de recursos humanos e econômicos para gastos militares, que também afetam o meio ambiente; a responsabilidade das empresas que agridem o meio ambiente; e a necessidade de constituir-se um tribunal internacional para julgar e punir todos os crimes ambientais praticados por empresas e governos que hoje estão impunes, pois as legislações nacionais não os controlam.

Teremos ainda um longo caminho pela frente para podermos enfrentar os graves problemas de desequilíbrios ambientais. Certamente não podemos contar com muitos governos, mais preocupados com as empresas que financiaram suas campanhas e/ou com taxas de crescimento econômico. Mas é urgente estimularmos que todos os movimentos sociais e as forças populares debatam esses temas, para gerar uma consciência mundial das mudanças necessárias.