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Entrevista: Obama, para onde vai?

Para o cientista político e historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira, ao não cumprir mais da metade de suas promessas de campanha, presidente estadunidense abriu espaço para crescimento da direita no país





Pete Souza/White House



Igor Ojeda

da Redação

O crescimento da direita nos Estados Unidos se deve aos próprios erros do governo do presidente Barack Obama, avalia o cientista político e historiador luso-brasileiro Luiz Alberto Moniz Bandeira. “Obama conseguiu somente aprovar a reforma da seguridade social e a regulamentação do sistema financeiro, o que desagradou os republicanos. Porém, por outro lado, intensificou a guerra no Afeganistão, uma guerra sabidamente perdida, e a retirada das tropas do Iraque foi parcial e sem obter o controle da situação”, diz, em entrevista por correio eletrônico ao Brasil de Fato. Assim, o desencanto com um presidente que representava a esperança para muita gente foi um dos motivos que levou à derrota do Partido Democrata nas eleições legislativas de novembro de 2010. “É preciso considerar que a abstenção nas eleições parlamentares de novembro foi enorme e, ao que me consta, foi em larga medida de latinos e jovens”, eleitorado que optou por Obama em 2008.

No entanto, Moniz Bandeira não está muito preocupado com a emergência do Tea Party no cenário político-ideológico-social estadunidense. “Uma extrema-direita sempre houve nos Estados Unidos, sobretudo dentro do Partido Republicano”. De acordo com ele, a origem desse movimento radica na perda de poder da elite tradicional do país (brancos, anglo-saxões e protestantes) em decorrência do crescimento das minorias étnica no país.

Sobre Sarah Palin, Moniz é taxativo: apesar de todas as especulações de que ela seja candidata à Presidência em 2012, ele não acredita nessa hipótese. “Não creio que Sarah Palin, mulher extremamente ignorante e cuja principal base política é o Alasca, possa impor sua candidatura ao Partido Republicano”. Leia, a seguir, a entrevista.

Brasil de Fato – Muitos analistas apontam que a economia foi a principal causa da derrota do Partido Democrata nas eleições de 2 de novembro. Agora, o presidente Barack Obama terá que enfrentar, além da crise econômica (que não dá sinais de abrandamento), uma oposição fortalecida no Congresso e um “caldo de cultura” mais à direita na sociedade estadunidense. Internamente, como o senhor vê os próximos dois anos nos Estados Unidos?

Luiz Alberto Moniz Bandeira – Não havia a menor dúvida de que o presidente Barack Obama perderia a eleição parlamentar de 2010. Sua política, de modo geral, foi muito inconsequente. Não cumpriu sequer metade das promessas que fez durante a campanha. Conseguiu somente aprovar a reforma da seguridade social e a regulamentação do sistema financeiro, o que desagradou os republicanos. Porém, por outro lado, intensificou a guerra no Afeganistão, uma guerra sabidamente perdida, e a retirada das tropas do Iraque foi parcial e sem obter o controle da situação. A retirada das tropas foi uma burla, posto que os Estados Unidos seguem ocupando o país com 50 mil soldados. Mas não se pode dizer que Obama esteja politicamente liquidado. Em política, nada se pode afirmar de modo categórico. Tudo vai depender das circunstâncias.

E o que os resultados das urnas e essa nova correlação de forças nos Estados Unidos podem trazer de consequências para a política externa do país em relação a, por exemplo, Iraque e América Latina?

Não creio que possa haver consequências substanciais para a política externa dos Estados Unidos. A variação pode ser na ênfase, no acento. Os Estados Unidos possuem uma política exterior de Estado e seus interesses são condicionados pelas necessidades do processo produtivo do Império e no qual o peso da indústria bélica é muito forte. Tanto isso é certo que o presidente Obama não modificou as linhas gerais da política exterior do presidente Bush [George W. Bush (2001-2009)]. Não houve maior avanço. E é preciso considerar que a abstenção nas eleições parlamentares de novembro foi enorme e, ao que me consta, foi em larga medida de latinos e jovens. Essa abstenção decorreu aparentemente do desencanto com Obama.

A vitória republicana traz, consigo, o fortalecimento da extrema-direita no país. Qual o perfil dessa direita ascendente?

Uma extrema-direita sempre houve nos Estados Unidos, sobretudo dentro do Partido Republicano, e o presidente Bush foi, de certo modo, um de seus representantes. Agora, um setor constitui o Tea Party, uma tendência com certas características fascistas. A origem de sua emergência está no fato de que o poder dos WASP (brancos anglo-saxões protestantes) [White Anglo-Saxon Protestant] está esmaecendo em virtude do crescimento das minorias étnicas, sobretudo, latino-americanas. A eleição de Obama, um colored, de descendência africana, evidenciou esse fato. Mas isso não significa que possa modificar essencialmente a política exterior dos Estados Unidos, cujo objetivo é preservar seu império.

Quais foram os elementos que permitiram tal fortalecimento? O que isso pode acarretar para o futuro próximo? O senhor vê potencial de essa direita “sair do controle”?

A situação econômica e financeira dos Estados Unidos é calamitosa. E é muito, ou quase impossível, que haja qualquer melhoria a curto prazo ou mesmo a médio e longo prazo. A sociedade americana está a consumir muito mais do que produz. Importa mais do que exporta. E o que vai derrotar os Estados Unidos é a sua própria economia. Seu império está em decadência, o que não significa que já esteja no fim. Essa decadência deve ainda durar muitas décadas, mas não séculos, como aconteceu com o Império Romano. E uma potência pode ser mais perigosa quando está a perder sua hegemonia e quer preservá-la a todo custo do que quando expande seu domínio. Não é por outra razão que, agora, os Estados Unidos pretendem estender a Aliança Atlântica (Otan) ao Atlântico Sul. A ameaça existe e visa a conter a emergência na América do Sul de governos mais independentes, politicamente insubmissos às diretrizes do Império. E o principal objetivo é enquadrar o Brasil, que é a única potência regional e à qual se alinham Argentina, Bolívia, Venezuela e Uruguai. Por outro lado, a situação mundial é muito similar à do início dos anos 1930, quando a desvalorização do dólar levou à desvalorização da libra, do franco e de todas as moedas, com a deflagração de uma guerra cambial, que logo se converteu em uma guerra comercial. Mas não creio que possa “sair do controle”, pelo menos no futuro próximo. Nenhum país vai fazer guerra contra os Estados Unidos. E os Estados Unidos não estão em condições financeiras e militares de entrar em outra guerra, como contra o Irã, por exemplo, uma vez que nem mais se aguentam no Afeganistão e no Iraque, onde virtualmente estão derrotados, porque os atentados continuam e a paz não foi propriamente consolidada. Ademais, o desenvolvimento tecnológico alcançou tal nível que praticamente inviabiliza qualquer guerra contra uma outra potência, como a China, por exemplo.

Sarah Palin, candidata a vice-presidenta pelo Partido Republicano em 2008 e expoente do Tea Party, sai fortalecida para tentar derrotar Obama nas próximas eleições presidenciais, em 2012? Quais aspectos ela exploraria para ganhar votos?

Qualquer coisa que agora se diga seria mais ou menos uma especulação. Mas não creio que Sarah Palin, mulher extremamente ignorante e cuja principal base política é o Alasca, possa impor sua candidatura ao Partido Republicano.

O Tea Party tende a ser um movimento para além do republicanismo?

A pretensão seria essa. Mas o Tea Party, que ela ajudou a criar, não avançou muito nas eleições parlamentares de novembro, ao contrário das expectativas.

Alguns membros do próprio Partido Republicano não estão muito contentes com a ascensão do Tea Party e sua aproximação com o partido. Como o senhor avalia essa relação e o que isso pode acarretar dentro do Partido Republicano e no interior do próprio sistema político-eleitoral estadunidense?

É muito difícil de avaliar. Não me parece que o Tea Party possa acarretar consequência maior para o Partido Republicano ou o sistema político-eleitoral. Mas o quadro político ainda é muito volátil, como decorrência da grave crise econômica e financeira que Obama não consegue resolver. Aliás, uma crise econômica e financeira agravada pelas políticas do presidente George W. Bush, que favoreceram a concentração ainda maior da riqueza e aprofundaram os déficits fiscal e comercial, bem como a dívida pública dos Estados Unidos.

<QUEM É>

O cientista político e historiador luso-brasileiro Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira é especialista em relações internacionais do Brasil, principalmente com a Argentina e os Estados Unidos, e na história deste último. Formado em Direito, já lançou inúmeras obras sobre o país norte-americano, entre eles, Formação do império americano: da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque, As relações perigosas: Brasil-Estados Unidos (De Collor a Lula) e Brasil, Argentina e Estados Unidos: da Tríplice Aliança ao Mercosul. Vive na Alemanha desde 1996.