Brasil de Fato

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“Pedro e os Lobos”: militar, guerrilheiro, militar

Livro conta a trajetória de um guerrilheiro urbano contra o regime militar





Divulgação



1º/02/2011

Michelle Amaral

da Redação

Pedro Lobo nasceu em Natividade da Serra, interior de São Paulo em 1931. Quando tinha 18 anos decidiu tentar chegar ao Mato Grosso, mas acabou se instalando na capital paulista, onde trabalhou como servente de pedreiro e torneiro mecânico até ano de 1955, quando ingressou na polícia militar. Dentro do quartel, o ex-pedreiro Pedro aproximou-se das ideias marxistas e filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro e, em 1964, foi expulso da corporação por meio do Ato Institucional I.

Na década de 60, Lobo participou de expropriações a bancos, ações políticas na capital paulista que visavam desestabilizar o governo militar e foi um dos fundadores da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).

Em 1970, Lobo, ao lado de outros companheiros, foi banido do país. O militante passou pela Argélia, Cuba, Chile e Argentina até se instalar na Alemanha Oriental. Em 1980, beneficiado pela Anistia, Lobo retornou ao Brasil. E, no dia seguinte a sua chegada ao país, ele decide se apresentar ao Departamento Pessoal da Força Pública e para sua surpresa foi reintegrado dezesseis anos após ter sido expulso da corporação.

Narrando as aventuras e desventuras de um militar que se torna guerrilheiro e, depois da ditadura civil e militar, volta a ser militar, o jornalista João Roberto Laque retrata em “Pedro e os Lobos” os anos de chumbo da história brasileira.

O livro, lançado pela editora “Ava Editorial”, é resultado de sete anos de trabalho de Laque. Entre depoimentos e pesquisas no Arquivo Público do Estado de São Paulo, onde existem documentos do Departamento de Ordem e Política Social (Dops), e no Arquivo Edgard Leuenroth, em Campinas, onde está o arquivo do Supremo Tribunal Militar, o autor constrói de forma detalhada o período.

Em entrevista ao Brasil de Fato Laque conta sobre o livro, a personagem e seu envolvimento com ambos.

Confira entrevista abaixo:

Como surgiu a ideia de contar a história da ditadura através da vida de Pedro Lobo? Como foi a escolha da personagem?

Eu fui criado durante a ditadura, tenho 52 anos. Eu era muito novo e, por causa da ditadura, a gente não sabia nada do período. Quando entrei na universidade me politizei. Em 1982, muito por acaso, eu encontrei o Pedro Lobo no escritório do [advogado] Eduardo Greenghalgh e do Hélio Flávio, no antigo prédio em que o PT foi fundado. Ele me contou em meia hora sua história da vida e eu achei fantástica. Falei: “Nossa! A história desse cara dá um livro”. Um cara que é sargento da Força Pública, vai para a guerrilha, é banido do Brasil e depois volta reintegrado à Força Pública de novo, como se nada tivesse acontecido. Ele está vivo, tem 80 anos hoje. A história dele me fascinou. Eu já era fascinado pela luta armada e encontrei o Pedro, que é um personagem único na história. Propus para ele o livro e ele não topou. Ele falou: “Não, outros companheiros já escreveram, deixa para lá”. Só doze anos depois fui reencontrá-lo, ainda com a história quente na cabeça, e ele topou contar sua vida para eu escrever o livro.

O Pedro Lobo optou pela resistência à ditadura pela luta armada. O que você acredita que o motivou a seguir por esse caminho?

O Pedro, você vê no começo do livro, passa por uma série de situações: vem de uma família paupérrima. Quando tem dezoito anos quase vira escravo em uma plantação de banana e vem para São Paulo trabalhar de servente de pedreiro. No decorrer da vida vai vendo todas as contradições existentes entre quem tem o dinheiro e quem precisa viver da miséria dos salários da época. E é o contexto da guerra fria repercutindo aqui no Brasil. Então, logo o Pedro se torna um comunista. O Pedro vai sendo politizado dentro do quartel. O Partido Comunista tinha um trabalho muito forte de politização dentro dos quartéis. Então, o Pedro acaba sendo convertido ao comunismo dentro do quartel da Força Pública. E aí ele vai trabalhar com o Prestes e se torna um comunista de carteirinha. Só por volta de 64 é que ele é expulso da polícia, exonerado sem direito nenhum pelo AI 1 e não vê outra saída. A saída é ir para o pau mesmo. Não tinham outras saídas, os amigos dele sendo presos e torturados, estavam morrendo. Ir para a luta armada era o norte que ele tinha.

Quanto tempo durou o trabalho de produção do livro?

O livro começou como uma biografia, mas hoje não é mais. Hoje é um livro histórico que conta o período, a partir da ótica da guerrilha. Por cerca de tres anos entrevistei o Pedro, fiz quinze entrevistas com ele, que mora em São José. Quando fechei o texto todo vi que seria só mais uma biografia do Pedro Lobo. E, como tinha dado aula e os alunos de segundo grau tinham muita carência de informação sobre o período, resolvi usar a biografia que tinha como um fio condutor para contar a história, que ainda está sendo escrita e é uma coisa que ainda está quente, está fervilhando nas mãos de quem trabalha com ela. Nos dias atuais, temos ex-guerrilheiros aparecendo, ex-guerrilheira na presidência, tem ex-guerrilheiro contando agora a sua história, os cadáveres não foram encontrados ainda. Então, é uma história que ferve. Você vai escrevendo e, na medida em que escreve, tem que ir re-escrevendo, porque vão surgindo novidades, vão surgindo revelações novas.

Como foi o trabalho de reunião dos dados para compor o livro?

Pois é, complicado. Na primeira fase, quando o livro seria só a biografia do Pedro, foi de entrevistas só com ele. Depois, seguidas entrevistas com companheiros dele. Alguns não falam, tive a maior dificuldade, viajei para o Rio Grande do Sul para entrevistar um ex-companheiro que não falou. Um deles, que mora em Curitiba, mudou de telefone para não falar comigo. Tem um outro grande companheiro do Pedro, aqui em São Paulo, que não quis falar. São pessoas que trazem uma grande mágoa, uma marca muito profunda da tortura e do período e não falam. Mas encontrei os que falavam, aí fui levantando histórias orais, que não haviam [sido registradas], porque o livro traz histórias de operações fracassadas que a historiografia oficial não aborda. Então, esse molho [de informações] tive que arrancar das pessoas que se dispuseram a falar. Contei com a muita boa vontade do ex-sargento Darci Rodrigues, companheiro do [Carlos] Lamarca, do José Nóbrega, e de outros, como a Dulce Maia e outros companheiros do Pedro. Fiz pesquisa no arquivo do Estado, que tem muita coisa no arquivo do Dops, o inquérito do Pedro e tudo. E depois fiz mais pesquisa em Campinas, no [Centro de Pesquisa] Edgard Leuenroth, no arquivo do Supremo Tribunal Militar. E fui para o Rio [de Janeiro], para Belo Horizonte e Brasília. Foi um trabalho que durou sete anos no total.

O livro traz uma riqueza de detalhes das ações, isso foi obtido através dos depoimentos?

Não. Uma parte apurei nos jornais do Arquivo do Estado. Lá eles digitalizaram o [jornal] Última Hora do Rio de Janeiro, tem todo o acervo. Passei meses revirando os jornais da hemeroteca do Arquivo do Estado para pegar os detalhes das ações e lendo os inquéritos. Li muitos inquéritos, alguns de cinco mil páginas, de três mil páginas. E biografias, também li mais de sessenta livros.

No que diz respeito à revelação dos crimes do Estado que aconteceram a ditadura, como você acha que o livro pode contribuir com a memória desse período?

O livro é escrito em uma linguagem jornalística e meio estudantil. O público-alvo é uma molecada na faixa dos 30, esse pessoal que não viveu esse período ou que, como eu, ficou nas trevas do período, sob a censura que eu cresci, não podendo falar. Acho que essa moçada tem muita carência. Tanto que agora na campanha da Dilma aconteceu uma coisa interessante. Na posse ela convidou ex-companheiros de cadeia e vi vários comentários de jovens dizendo que “se os caras foram presos é porque têm culpa”. Ou “por que ela está convidando ex-presidiários para participar da posse?”. “Se os caras foram presos é porque fizeram alguma coisa”. Aí você vê o grau de informação da juventude brasileira sobre esse período. E fizeram uma campanha incendiosa contra a Dilma, vinculando-a à guerrilha como se ela fosse assassina. Divulgaram na Internet denúncias de que ela tinha assaltado bancos e participado de ações que ela não participou, que na verdade foi o Pedro e os companheiros dele que fizeram. Então, acho que o livro vem para ajudar a esclarecer essa falta de memória mesmo. Acho que faltava um livro com linguagem acessível para tratar desse assunto.

Em países da América Latina, como Argentina e Chile, os torturadores têm sido levados ao banco dos réus e condenados. Nesse cenário, como você avalia a conduta do Brasil em relação a seus torturadores?

É péssima, porque o Estado não pode anistiar a si mesmo. Quer dizer, os militares não podiam se autoanistiar. Anistia pressupõe perdão, você só pode perdoar um outro, você não se autoperdoar. E como o Pedro mesmo diz, eles [os militantes] não torturaram ninguém, tudo que fizeram foi assumido depois, ou na tortura ou de outra forma. E a cara deles está aí, dizem quem são, e foram anistiados. Agora, os torturadores não mostraram a cara, a gente não sabe quem foram. A tortura é um crime de lesa-humanidade, é um crime de guerra cruel. Você não pode, com a desculpa de que você precisa passar um pano na história, deixar de condenar pessoas que cometeram crimes universais, crimes atrozes. E o Estado não tem o direito de ele mesmo se anistiar, isso é uma questão jurídica complicada.

Recentemente o Brasil foi condenado na Corte da OEA pelo desaparecimento de guerrilheiros do Araguaia. No entanto, o ministro Nelson Jobim disse que a decisão não afeta o Brasil. Tal postura representa um atraso do Brasil na busca pela justiça e memória?

Claro. Eu acho que isso é ser conivente com crime de lesa humanidade. O Brasil está sendo conivente com uma “meia dúzia”, uma minoria, que barbarizou, que torturou em nome da lei, em nome do Estado, em nome da ordem, mas a serviço de uma ditadura. Torturou, barbarizou quem estava contra a ditadura, os inimigos não eram os guerrilheiros. O inimigo era o Estado militar que tomou o poder, derrubou um presidente legitimamente eleito e não elegeu outro. Chegou ao poder e ficou no poder. Esse era o inimigo da pátria. E esse inimigo da pátria se autoanistiou, quer dizer, esse é um negócio que, para mim, não tem a menor lógica.

<Quem é>

João Roberto Laque é jornalista e historiador. Formou-se pela Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP).