Brasil de Fato

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O final da ditadura egípcia atemoriza Israel

Tel Aviv observa com preocupação como a população egípcia está a ponto de derrubar seu principal aliado regional


Mónica G. Prieto

Periodismo Humano

Durante mais de 20 anos, Israel não teve que preocupar-se com seus vizinhos do sul. Depois dos Acordos de Camp David de 1978, nos quais Tel Aviv firmou a paz com o Cairo, os egípcios tornaram-se seu melhor aliado regional, um país que, ao invés de ameaçar-lhe, lhe ajudava a enfrentar grupos armados como o Hamas ou o Hezbolah com um ímpeto impensável em qualquer outro país árabe.

Não só compartilhavam Inteligência ou concordavam em permitir que barcos israelenses patrulhassem o canal de Suez: fecharam a faixa de Gaza do lado egípcio, seguindo as instruções do Estado hebreu e condenando assim a população de Gaza à miséria, boicotando qualquer tentativa de reconstrução. Inclusive, instalaram um muro subterrâneo de aço para tentar impedir – sem êxito – que os palestinos se abastecessem mediante o contrabando dos túneis.

Hosni Mubarak e seu atual vice-presidente, o chefe de espiões Omar Suleiman, se converteram no melhor sócio que podiam imaginar. Daí o pânico dramático que invade hoje aos israelenses enquanto assistem às últimas horas de seu único aliado regional junto à Jordânia.

Para Israel, Egito é o maior sócio estratégico depois dos Estados Unidos. O país tem contado com Mubarak para isolar ao Hamas, o movimento islâmico no poder na Faixa de Gaza, boicotado pela comunidade internacional e abandonado pelos árabes após ganhar as eleições de 2006; também para prender aos militantes do Hezbolah que tratavam de atuar desde o território egípcio. Tem sido o melhor aliado na particular batalha israelense contra a Síria e o Irã: o Cairo disputa com Riad (cidade da Arábia Saudita) a liderança sunita regional, e como tal está em desacordo com os xiitas no poder daqueles dois países. E há décadas tem sido usado para financiar a liquidação dos islâmicos que atentaram contra turistas, que mataram ao anterior presidente, Anuar al Sadat, precisamente por firmar a paz com Israel e que rechaçam sobre todas as coisas ao Estado hebreu.

O Egito havia se consagrado como um baluarte imprescindível em meio a um entorno hostil. Por isso Israel tenha muito a perder nesta primavera árabe que tanto entusiasma a meio mundo. “De pronto, Israel se vê na posição mais perigosa que já esteve desde 1948 (data da criação de seu Estado)”, explica ao Periodismo Humano Nicholas Noe, diretor do serviço de traduções árabes Mideastwire e autor do livro A voz do Hezbolah. “Ao seu redor está florescendo uma série de atores não oficiais, de movimentos e de situações opostas à política de Israel e, inclusive, à sua mera existência”. A consequência do que ocorre no Egito é que Israel será menos segura e menos estável”.

Para minimizar este risco, no fim de semana passado Tel Aviv enviou cartas rapidamente ainda que de forma desesperada. Segundo o diário Haaretz, o Ministério de Assuntos Exteriores israelense pediu, no sábado passado, a seus embaixadores nos EUA, Canadá, China, Rússia e vários países europeus que pressionem às autoridades de seus respectivos países ressaltando a importância que tem para Israel manter o regime autocrático de Mubarak, mesmo que pese a seus 80 milhões de habitantes. O problema é que a população egípcia não atua em coordenação com o Ocidente: mas atua contra e apesar das políticas do Ocidente, que tem protegido a ditadores como Mubarak apesar das violações flagrantes dos Direitos Humanos que seus sistemas incorrem só para manter seus interesses.

“Não é só o Egito. Na Jordânia, a Irmandade Muçulmana e os palestinos vão ganhar com esta situação, inclusive se não houver mudanças significativas Síria permanece estável e no Líbano está se formando um governo vinculado ao Hezbolah. De pronto, Israel está rodeado de agentes hostis. Muita coisa mudou desde a Conferência de Madrid, quando a maioria dos árabes foi favorável ao compromisso com Israel: 20 anos depois, a lógica mudou dramaticamente”.

O primeiro ministro, Benjamim Netanyahu, afirma seguir os acontecimentos no país dos faraós com “vigilância e preocupação”. O presidente Shimon Peres vai mais além, admitindo que “sempre tive e tenho um grande respeito pelo presidente Mubarak” e afirmando que “uma oligarquia fanática religiosa não é melhor que a falta de democracia”. Com suas palavras insinua que a revolução egípcia tem como último objetivo instaurar um regime islâmico ao estilo iraniano – uma ameaça escutada nestes dias –, mas a realidade é que a Irmandade Muçulmana, sunitas, só têm se somado às manifestações de maneira particular e que tem delegado a Mohamed Elbaradei, Prêmio Nobel da Paz 2005, pouco suspeito de radicais islâmicos, toda negociação com o regime. Tudo faz indicar que Elbaradei será o homem que liderará a transição egípcia.

A Irmandade Muçulmana, de grande peso na classe baixa egípcia, emitiram ontem um comunicado para esclarecer sua postura a respeito. “Esta revolução não tem nada em comum com o Irã. Egito nunca será como Irã. Respeitamos todos os acordos de paz firmados com todos os países do mundo”, disseram em referência aos acordos de paz com Israel. Egito, junto com a Jordânia, são os dois únicos países árabes que têm relações com o Estado hebreu, uma vez que a Mauritânia anulou seus acordos diplomáticos no início da ofensiva de 2008 contra Gaza. “Esta revolução é dos egípcios, de toda idade e condição, não da Irmandade Muçulmana. Nossos membros tem se somado como indivíduos”, recordam desde a organização islâmica egípcia

“A experiência em revoluções diz que nunca sabes o que vai sair delas”, opina Alastair Crooke, diretor do think tank (organização que produz pesquisas) libanês Foro para a Resolução de Conflitos, encarregado de aproximar pontos de vista entre o Ocidente e o Oriente. “A do Egito não tem por quê ser a revolução iraniana”, acrescentou. “Mas, sem dúvida, faz que Israel se sinta isolado. É uma mudança sem precedentes que fará que já não se sinta seguro porque o entorno de governos aliados e pró-ocidentais está mudando”.

Crooke, mediador nos conflitos da Irlanda do Norte, África do Sul, Colômbia ou o do Oriente Próximo (1997-2003) e autor do livro Resistência: A essência da revolução islâmica, considera que os bombardeios israelenses contra Gaza em 2008 são um fator decisivo na hora de entender o mal estar dos protestos de rua egípcios. Mubarak não só não condenou a matança dos palestinos, mas fechou sua fronteira com a faixa durante toda a ofensiva, deixando passar com conta-gotas até mesmo aos médicos e impedindo que a população civil escapasse das bombas. “Os egípcios nunca aceitaram essa política. Aquelas imagens afetaram a todos os egípcios, salvo Mubarak. Isso é algo que terá que mudar tanto se permanecer o regime de Mubarak quanto se mudar: o novo governo terá que preocupar-se em resolver o impacto da Operação Chumbo Duro na população”.

É uma realidade que o povo egípcio não simpatiza com Israel, com quem travou quatro guerras desde a criação do Estado hebreu: em 1948, 1956, 1967 e 1973. Não podem mais que transitar pelos resorts turísticos do Sinai egípcio: em alguns deles os turistas israelenses não são admitidos. A isto soma-se que o mais provável líder de transição, Mohamed Elbaradei, é observado com muito receio em Tel Aviv dado que, desde seu posto à frente da Organização Internacional para a Energia Atômica, denunciou com especial afinco a dupla medida internacional que levou a perseguir o Irã por suas pretensões nucleares e, ao mesmo tempo, nem sequer solicitava a Israel que seu programa atômico fosse supervisionado pelos inspetores de sua organização. Também foi contrário à invasão do Iraque.

Egito compartilha com Israel 250 quilômetros de fronteira em pleno deserto, que os agentes de Mubarak fecharam para impedir que a imigração africana afete a seu vizinho do norte. Além disso, seu Exército há anos concentra seus esforços em outras frentes: as milícias palestinas, especialmente em Gaza; as muito mais temíveis do Hezbolah na fronteira libanesa; Síria e Irã, seu mais sério inimigo.

Mas as preocupações de Israel não são só em matéria de segurança, se bem que estas são as mais importantes. Além disso, Israel importa 40% do gás natural que consome desde o Egito através da tubulação de gás Leste-Mediterrâneo, uma companhia israelense-egípcia. Ambos países firmaram em 2005 um contrato que mantém esta colaboração durante 20 anos. Ainda, os acordos de comércio bilaterais chegaram a mais de 500 milhões de dólares em 2010.

E isso não é o pior: se o contágio das manifestações a Jordânia terminar em eleições livres, os partidos islâmicos na oposição chegariam ao poder provavelmente desejosos de revisar as relações com o sócio israelense. E o monarca Abdallah II parece disposto a aceitar a qualquer coisa para garantir a sobrevivência da instituição.

Nenhuma mudança no Egito significa que os acordos de paz devem ser abolidos, nem que a revolução vai acabar com o status quo na Jordânia, enquanto outro está sendo exportado, mas o editorial do jornal Haaretz de ontem já solicitava ao Executivo israelense que mude a sua política para evitar ficar completamente isolado em uma região que lhe é hostil desde a sua fundação como Estado.

O jornal progressista indicava que Israel deve “preparar-se para uma nova ordem regional” e criticou Netanyahu por preferir “os tiranos que permanecem longos anos no poder” como “o mal menor”. Em vez de “refugiar-se no conhecido, no habitual onde ‘não tem ninguém com quem falar ou em quem confiar”, deve se adaptar a uma realidade em que os cidadãos dos Estados árabes, não apenas os tiranos, influenciam na trajetória de seus países”. Até o comentarista Sever Plock criticava, nas páginas do jornal direitista Yediot Ahronot, que “Israel é dominado pelo medo da democracia, não aqui mas em países vizinhos”, “apesar de nunca ter orado para os árabes se tornarem democracias neoliberais “.