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Em São Paulo, o bullying é do estado contra o professor

O preconceito desta vez, partiu próprio Estado contra três professoras impedidas de dar aula por serem "obesas"


Patrícia Benvenuti

Da redação

O ano letivo mal começou e a discriminação nas escolas - prática recentemente apelidada de bullying - já é motivo de preocupação em São Paulo. O preconceito desta vez, no entanto, não partiu dos estudantes, e sim do próprio Estado contra três professoras temporárias, impedidas de dar aula por serem “obesas”.

As professoras, que trabalhavam há vários anos como temporárias na rede estadual de ensino, prestaram concurso público para serem efetivadas. Classificadas em um primeiro momento, as professoras participaram de um curso de formação e fizeram um segundo exame, no qual também foram aprovadas. Elas chegaram a ter seus nomes publicados no Diário Oficial. No entanto, não passaram no exame realizado pelo Departamento de Perícias Médicas do Estado. No laudo médico não constam detalhes, apenas a expressão “não apto”.

As profissionais não receberam informações mais precisas a respeito do diagnóstico. Elas garantem, porém, terem ouvido dos próprios médicos que a obesidade pode ser um fator de reprovação nos concursos públicos.

Preconceito

O caso das três professoras, no entanto, não é novidade, como explica a presidenta do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), Maria Izabel Azevedo Noronha. Segundo ela, vários profissionais já foram reprovados em concursos por apresentarem, além de obesidade, defeitos de visão como astigmatismo e miopia, problemas ortopédicos ou até mesmo câncer.

“É uma visão tecnicista. [Os professores] são seres humanos, são pessoas. E o Departamento de Perícias tenta enquadrá-las dentro de determinados parâmetros. afirma.

As professoras nunca pediram licença por questões de saúde e apresentaram resultados satisfatórios nos exames médicos. Para Maria Izabel, a única explicação para a reprovação das professoras é o preconceito. “[A pessoa] tem que ser 100% perfeita. Daqui a pouco vão exigir que a pessoa seja bonita também. E a questão da competência fica de lado”, diz.

Precarização

A presidenta da Apeoespa alerta, ainda, que muitas das enfernidades que atingem os profissionais de educação são causadas pela própria rotina dos professores. Mal remunerados e com cargas intensas de trabalho, resta pouco ou tempo algum para cuidados com saúde. “Professor tem que caminhar. Com essa jornada de trabalho, ele tem tempo? Não”, afirma. A própria alimentação oferecida aos professores, lembra ela, é inadequada. Sem cardápios diferenciados nas escolas, os educadores acabam comendo a merenda escolar, destinada aos estudantes e, por isso, mais calórica.

Para Maria Izabel, a discriminação contra os professores é mais um desrespeito com os trabalhadores da categoria. “Simplesmente se diz que [o candidato] está inapto e tira a dignidade do professor mais uma vez, tirando o seu trabalho”, afirma.

As professoras tentam agora, na Justiça, reverter a decisão para garantir seu direito de dar aulas. Maria Izabel vê a situação das professoras com otimismo, a partir de decisões favoráveis obtidas em casos semelhantes. “Estamos com esperança”, finaliza.

Investigação

O Ministério Público de São Paulo abriu, no final de 2009, um inquérito para apurar denúncias de mulheres que prestaram um concurso para agente escolar que se sentiram discriminadas por causa do peso.

No ofício consta um inquérito, divulgado em matéria da Folha de S.Paulo, em que a diretora técnica do Departamento de Saúde da Secretaria de Gestão Pública, afirma que a obesidade, se mórbida, é motivo de inaptidão do concursado.

A justificativa, segundo o documento, é que trabalhadores com obesidade mórbida apresentam maiores “níveis de absenteísmo ao trabalho” e risco de desenvolver outras doenças.

Nem todos os profissionais reprovados nas perícias, entretanto, apresentavam obesidade mórbida (calculada a partir do Índice de Massa Corporal).