Brasil de Fato

Uma Visão Popular do Brasil e do Mundo

Os “paladinos” da democracia

As variantes do padrão dito ‘ocidental’ de democracia representativa vivem hoje uma crise sem precedentes na história



Luiz Ricardo Leitão


O desconforto de Washington diante dos rumos inesperados que a onda de rebeliões no mundo árabe poderá assumir tem suscitado curiosos malabarismos políticos e retóricos de parte da Casa Branca e da mídia imperial. A fim de atenuar a má impressão que o bom mulato Obama provocou por conta de sua tímida e tardia reação ao movimento deflagrado pelos egípcios contra o regime de Mubarak (velho serviçal da política de Tio Sam e de Israel no Oriente Médio), os assessores palacianos despejam seus factoides na imprensa “livre”, com uma desfaçatez de dar inveja aos jornalistas de Bruzundanga.

O New York Times, por exemplo, evocou até a “agenda da liberdade” (!) que George W. Bush teria adotado como objetivo básico da política externa ianque, depois que a invasão do Iraque não pôde comprovar a suposta existência de “armas de destruição em massa” naquele país, conforme afirmara a CIA e outros serviços de inteligência (?) estadunidenses. Essa seria a melhor forma de conferir um signo positivo à famigerada “guerra ao terror”, cujo fiasco retumbante o próprio Pentágono não logra disfarçar.

“Pôr fim à tirania em nosso mundo” era o mote central do segundo discurso de posse de Bush e, por isso, Obama teria evitado o tema, para não ser associado a episódios tão controversos e delicados. Como, porém, ninguém sabe o fim exato desse tsunami, já é hora de retomar o mantra da “promoção da democracia”, de preferência sob o duradouro molde de Thomas Jefferson, e, de quebra, vender a ideia de que o bom mulato não se omitiu no processo árabe, posicionando-se sem nenhuma hesitação no “lado certo da história”…

Os paladinos da democracia representativa burguesa, temerosos de que o movimento popular resolva seguir por vias ainda mais radicais do que as já trilhadas, tratam de recomendar aos insurgentes que, após o êxito na luta contra o velho tirano, saiam das ruas e voltem ordeiramente à rotina de fome e exploração que o capital sempre lhes impôs. Esse pânico não é de hoje: o carrossel da história nos conta que o caminho para a resolução do desafio moderno em prol de liberdade/igualdade/fraternidade já se apresentara sob ao menos duas alternativas desde os turbulentos dias da Revolução Francesa.

De fato, o projeto da ascendente burguesia de então, delineado pelos cérebros do Iluminismo francês, pressupõe sempre a tutela das maiorias pelas elites ilustradas, ao passo que os defensores da legítima democracia de massas (desde Rousseau e os jacobinos até Marx e Lênin) declaram que, se esta não é direta nem participativa, jamais poderá ser considerada democrática. A valorosa experiência da Comuna de Paris e a decisiva interferência dos sovietes no processo revolucionário da Rússia em 1917 são exemplos emblemáticos dessa via.

As variantes do padrão dito ‘ocidental’ de democracia representativa vivem hoje uma crise sem precedentes na história. Não é possível, por certo, qualificar de ‘democrático’ o sistema político italiano, em que o sátiro Berlusconi, ‘eleito’ por apenas 30% da população e há muito contestado por distintos setores sociais, se mantém no poder à mercê do seu controle da mídia e das inúmeras maracutaias que concertou com os podres poderes nacionais. Será que poderíamos imaginar o bom mulato Obama concentrando suas baterias ‘democráticas’ sobre o insaciável capo da Bota?

A questão árabe, portanto, ainda será objeto de acirrado debate político e ideológico no seio do movimento social. Para atinar com o futuro, só mesmo parafraseando o clássico samba-enredo da União da Ilha: O que será o amanhã? Responda quem puder… O que irá nos acontecer? Nosso destino será o que o povo quiser… Oxalá as forças populares no mundo árabe superem a fórmula italiana que Giuseppe di Lampedusa enunciou no romance O Leopardo e consigam mudar para não deixar tudo como está…

Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, é autor de Noel Rosa – Poeta da Vila, Cronista do Brasil e Lima Barreto: o rebelde imprescindível.


Publicado originalmente na edição 417 do Brasil de Fato.