Brasil de Fato

Uma Visão Popular do Brasil e do Mundo

Desembaraçar o novelo

É fundamental, além da identificação do inimigo principal a ser combatido, a capacidade de estabelecermos prioridades, objetivos e metas claras


Editorial edição 418 do Brasil de Fato

Quando olhamos em nossa volta, nos deparamos com milhares de questões a serem resolvidas no curto ou até curtíssimo prazo. Elas parecem emergir dos poros das paredes, do concreto, do asfalto e calçadas, do chão de terra batida, das paredes de adobe e do sapé, das naves que cruzam os ares – que muitas vezes não são aviões de carreira ou mansas e inócuas enteléquias produzidas por alguns e adestradas por outros (em prejuízo do trabalho dos primeiros) nas academias.

E, de repente, os militantes esbaforidos correm para todos os lados, engajando-se num intenso ativismo, abraçando uma imensa quantidade de causas e tarefas, das quais, muitas vezes, saem de mãos vazias – potencializando apenas cansaço e algum desânimo. Apenas o “nível ideológico” e/ou os “estímulos ideológicos” não são, nunca foram, e nunca serão suficientes para garantir indefi nidamente o pique da militância.

É fundamental, além da identificação do inimigo principal a ser combatido (o que antecede tudo), a capacidade de estabelecermos prioridades, objetivos e metas claras. Ou seja, é necessária uma política clara e que não emane apenas de princípios gerais, ou de leis tendenciais, nem sempre universalizáveis, entoadas como palavras-de-ordem. Nesse quadro, também as denúncias pouco ajudam – no máximo, produzem efeitos catárticos, o prazer de liberação de altas doses de adrenalina seguido de prostração. Pranto. Riso. Orgasmo.

Para os movimentos populares reivindicatórios, essa dispersão pode parecer mais fácil de combater e ser contornada, pela reiteração do específico. No entanto, isso também não é verdade. Ainda aí, as novas conjunturas exigem discussões de caminhos consonantes com cada nova realidade política, com cada novo alinhamento e correlação de forças que se inaugure, para a conquista de suas reivindicações.

Conseguimos um razoável entendimento das diversas conjunturas e até temos sabido eleger prioridades e nos movimentarmos com alguma desenvoltura ao longo dos anos, apesar da falta de uma análise de classes consistente da nossa sociedade – carência que carregamos há mais de três décadas.

No entanto, hoje, falta-nos clareza até mesmo sobre a conjuntura (nacional e internacional) em que estamos enfiados até o pescoço: a dispersão da militância é o retrato mais fiel da nossa dispersão de ideias e propostas políticas, da nossa incapacidade de estabelecer prioridades, de apontar um Norte, sobretudo quando nos partidos políticos o espectro de esquerda mergulha a cada dia mais profunda e exclusivamente na disputa institucional.

Vivemos e agimos como se estivéssemos frente a um grande novelo de linha totalmente embaraçado, cuja ponta – que nos permitiria reorganizar a linha – houvesse desaparecido sem que tivéssemos percebido e não nos incomodasse essa situação, uma vez que nos ocupamos com trechos diversos do emaranhado: Alca; democratização da comunicação; transposição do São Francisco; anistia e punição dos responsáveis pelos crimes da ditadura; o agronegócio; a luta pelo passe livre; as agitações e mudanças no Norte da África e Oriente Médio; reforma agrária; Mercosul; a questão indígena; enchentes nas cidades; a presença da presidenta Dilma no aniversário de 90 anos da Folha de S. Paulo; o problema do solo urbano e da habitação; as estripulias e contorcionismo político do prefeito Gilberto Kassab; o imposto sindical; os desastres ambientais; as disputas de aparelho em torno da ministra Ana de Hollanda, da Cultura; redução da jornada de trabalho; direitos humanos; etc. etc. etc., tudo ao mesmo tempo, tudo igualmente urgente e importante – e, onde e quando tudo é igualmente importante, nada é importante.

Ou seja, estamos incapazes de definir coletivamente um eixo em torno do qual gravitem todas essas lutas (e outras), onde elas ao mesmo tempo desaguem e se alimentem, emprestem e, sobretudo, ganhem um sentido maior, abandonando o caráter fragmentado que vêm assumindo e passem a constituir um só corpo, uma só força.

Caso não atentarmos para isso, e se nenhum outro assunto momentoso conseguir ser pautado pela grande mídia comercial, corremos o sério risco de passarmos um ano “morto” e, somente em 2012, desaguarmos todos, mergulharmos de cabeça e atrelarmos todo o nosso fazer e toda a nossa discussão ao que vier ser pautado pelas eleições municipais. Aliás, esse não seria o problema, se tivéssemos essa clareza e nos preparássemos desde hoje com alternativas e projetos (com estratégias e táticas) nesse sentido. Do contrário, iremos a reboque do que nos oferecerem.

Outra importante pauta é a discussão da reforma política – com a qual podemos ter muito a ganhar ou muito a perder, dependendo de termos propostas e políticas capazes de garanti-las. É grave a pouca repercussão que o assunto tem entre a militância. Depois, não dará para correr atrás dos prejuízos. Não se chora o leite derramado.