Brasil de Fato

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Forças políticas tomam sua forma

Três campos se sobressaem a partir da renúncia de Mubarak


02/03/2011

Eduardo Sales de Lima

da Redação

A partir dos 18 dias de manifestações no Egito, três grandes forças políticas se sobressaíram. Existiria, de acordo com o sociólogo Lejeune Mirhan, um conjunto de forças mais conservadoras, apoiada pelos militares; outro campo político formado por forças religiosas, liderado pela Irmandade Muçulmana; e, por último, um conjunto de forças progressistas ligadas às bases populares.

Segundo ele, o primeiro campo tem um caráter laico conservador, que poderia representar a Junta Militar. “É um Mubarakismo sem (Hosni) Mubarak. Isso é uma possibilidade real”, pondera Mirhan. Para ele, até mesmo o próprio ministro da Defesa, Mohamed Hussein Tantawi, “conhecido como poodle de Mubarak, pró-americano ferrenho”, pode ser candidato a presidente.

Sobre esse setor, o professor de Relações Internacionais da UnB, Virgílio Arraes, acrescenta que, no momento, as forças armadas egípcias e a diplomacia estadunidense analisam os nomes dos possíveis sucessores de Mubarak para as eleições presidenciais de setembro. Arraes vai além e acredita que é possível que haja um consenso até mesmo com a “incipiente oposição”, mesmo civil.

A segunda força política, segundo Lejeune Mirhan, seria a união das forças islâmicas em torno do grupo chamado Irmandade Muçulmana. Entretanto, não é muito provável que esse campo dispute as eleições à presidência da república, visto que o laicismo na política egípcia já é algo consolidado, como explica a historiadora Arlene Clemesha. “O Egito tem uma população muito religiosa, mas que defende o laicismo na política. Mesmo a Irmandade conseguindo uma parcela dos votos ao parlamento, por exemplo, tem que ser tratada com normalidade. Os Estados Unidos e a Europa precisam olhar com mais normalidade para partidos islâmicos. Não são partidos radicais, anti-ocidentais”, explica.

Força popular

O terceiro campo, de acordo com Lejeune, é o que engloba os valores do nacionalismo e do pan-arabismo. Abrangeria uma linha mais popular e democrática. Para ele, uma aliança entre sindicatos progressistas, os jovens do Movimento 6 de abril, e figuras como Mohamed El Baradei, ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), e Amr Moussa, ex-ministro de relações exteriores de Mubarak e secretário geral da Liga Árabe, poderiam direcionar esse processo.

Contudo, apesar de o Egito viver um momento revolucionário, existem fragilidades consideráveis quanto à organização dessa terceira via, supostamente a mais progressista. Como conta estadunidense Alexander Hanna, que retornou do Egito no dia 13 de fevereiro, o país tem um movimento trabalhista muito vibrante em alguns setores, mas que foi em grande parte sufocado desde que a Federação de Sindicatos (única central do país) foi controlada pelo partido de Mubarak, o PND (Partido Nacional Democrático).

Outra dificuldade em aglutinar as forças mais progressistas poderá residir no foco sobre El Baradei, que apesar de criticar tanto os Estados Unidos quanto as medidas que a Junta está tomando, não se transformou em fator de consenso. “El Baradei é um nome importante e respeitado no Egito. No entanto, pelo que pude perceber durante minha estadia por lá, ele não é considerado um líder capaz de defender as aspirações do povo egípcio e sofre duras críticas por ter passado grande parte de sua vida e carreira fora do país”, defende Fernando Bissacot, brasileiro e bacharel em Relações Internacionais, que esteve três meses no Egito e retornou no dia 11.

Para Lejeune, a maior parte das forças progressistas queria um governo provisório, não uma junta militar. Por isso, ele conclui que o primeiro campo já está sendo vitorioso, de certa forma. “Mas de qualquer forma haverá eleições”, afirma.

Fato é que bruscas ou não, não há como fugir das mudanças políticas após as eleições. Para Arlene Clemesha, passadas as eleições programadas para setembro, seja qual força política as vença, um cenário possível é o estabelecimento de políticas mais autônomas. “E essas políticas mais autônomas vão, portanto, resguardar os interesses do Egito, dos países árabes em geral também, e pode significar a formação de um entrave a toda ingerência externa, hoje muito grande”, explica. (Colaboraram Renato Godoy de Toledo e Luís Brasilino)