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Protesto contra atropelamento de ciclistas reúne 2 mil em Porto Alegre

Cartazes e gritos de guerra traduziam a indignação contra a violência





Marcelo Noah/CC




02/03/2011



Igor Natusch
Sul 21



A manifestação desta terça-feira (1º), promovida por integrantes e simpatizantes do movimento Massa Crítica, emocionou Ricardo Ambus de forma especial. Foi a primeira vez, desde o atropelamento coletivo ocorrido na última sexta-feira (25), que Ricardo cruzou a esquina das ruas José do Patrocínio e Luiz Afonso, bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre. No cruzamento, ele foi o primeiro dos ciclistas a ser atropelado pelo Golf preto de outro Ricardo, o funcionário público Ricardo José Neis. Em meio a centenas de pessoas, instantes antes de deitar-se ao chão junto com elas para reproduzir o ataque de poucos dias antes, o jovem de 23 anos parou, olhou ao redor e chorou. Enxugou brevemente as lágrimas, com a mão direita – o braço esquerdo, fraturado em dois lugares, está imobilizado.

Ricardo foi uma das cerca de 2 mil pessoas a participar de um grande protesto contra a violência sofrida pelo grupo, que tomou conta das ruas da região central de Porto Alegre. Parte delas estava presente também no ataque de sexta-feira, onde cerca de 20 pessoas foram atingidas. Uma das pessoas que pedalavam pela José do Patrocínio no momento do ataque comentou com a reportagem do Sul21 que julgou, por um instante, estar ouvindo tiros no meio da rua. Só quando o carro passou rapidamente, a pouco mais de um metro dela, percebeu que havia sido um atropelamento – e que o som metálico que tinha ouvido era, na verdade, o som das bicicletas chocando-se contra a carroceria do veículo. “De vez em quando, escuto esse barulho na minha cabeça”, garantiu.

A concentração de pessoas começou antes das 18h, e reuniu um grupo bastante heterogêneo de pessoas. A maioria era de jovens, mas pessoas de mais (e menos) idade também estavam presentes. Profissionais que trabalham com bicicletas, como trabalhadores dos Correios e até um entregador de água mineral, tomaram parte em alguns trechos da manifestação. Alguns distribuíam rosas aos motoristas que encontravam no caminho, enquanto outros carregavam cartazes pedindo respeito e punição para o agressor que levou vários deles ao hospital. Acompanhando a marcha, integrantes da EPTC e da Brigada Militar garantiam o bloqueio das vias por onde passava o pacífico protesto.

“Por que não dobrou?”, perguntavam ciclistas


O trajeto iniciou-se no Largo Zumbi dos Palmares, avançando pela José do Patrocínio em direção ao cruzamento onde o ataque ocorreu. Ao chegar à esquina, os manifestantes ergueram a voz. “Dava para dobrar à direita? Dava para dobrar à esquerda?”, gritavam, completando cada pergunta com um intenso e afirmativo “Dava”. A seguir, uma outra pergunta, mais dramática: “e por que não dobrou?” A última resposta era intensa e indignada. “Assassino!”, gritavam os manifestantes.

A seguir, os ciclistas deitaram no chão e começaram a gritar e gemer, imitando o cenário que tomou conta da rua na sexta, quando um motorista atropelou vários deles em alta velocidade. O ato é conhecido como “die-in”, e já foi usado muitas vezes por manifestações que buscam denunciar algum tipo de violência. A cena levou alguns presentes às lágrimas. Por fim, uma intensa salva de palmas.

Em vários pontos do trajeto, carros e ônibus tiveram seu acesso bloqueado, o que provocou reações distintas nos motoristas. Alguns não disfarçavam a contrariedade, apelando até ao uso de buzinas para deixar claro que não estavam felizes com a interrupção. Outros também apelaram ao buzinaço, mas com intenção menos antipática aos manifestantes: seguindo o ritmo dos gritos de guerra, deixavam claro o apoio à causa. “Isso me atrapalha, especialmente porque estou de serviço”, disse o taxista Vanderlei Bom Cardoso. “Mas acho válido, eles têm todo o direito de protestar. O que o cara fez não existe, é um absurdo, eu mesmo fiquei revoltado”, garantiu o motorista, parado na esquina da Lopo Gonçalves com a Lima e Silva.

Os cartazes e gritos de guerra traduziam a grande indignação dos integrantes do Massa Crítica, movimento espalhado pelo globo que defende o uso de bicicletas como meio de transporte nas grandes cidades. Segundo informações do grupo, é a primeira vez que o movimento registra semelhante caso de agressão, em todo o mundo. “Compartilhe a pista”, “a tua pressa vale a minha vida”, “legítima covardia” e “cidade para todos” eram alguma das frases lidas nos cartazes exibidos durante a marcha. A plenos pulmões, os gritos de guerra reforçavam o tom de lamento e revolta dos cartazes. “Relaxa, motora, relaxa: tem gente pedalando na Cidade Baixa”, “Atropelou, foi por querer, o que a Justiça vai fazer?” e “Bicicleta! Um carro a menos!” foram algumas das frases de ordem entoadas no decorrer do protesto.

A movimentação, que iniciou-se por volta das 19h, teve fim pouco mais de uma hora depois, na frente da prefeitura de Porto Alegre. No local, alguns representantes foram recebidos pelo secretário municipal de Coordenação Política e Governança Local, Cezar Busatto. A sugestão dos ciclistas é de que ações educativas sejam realizadas junto aos motoristas, promovendo o respeito a quem anda de bicicleta pelas ruas.

Manifestações por todo o mundo apoiam ciclistas gaúchos


Em várias das maiores cidades do Brasil, eventos foram ou serão promovidos para declarar apoio aos integrantes gaúchos do Massa Crítica. Em São Paulo, mais de 100 ciclistas reuniram-se na segunda-feira (28) na Avenida Paulista, uma das principais vias da cidade. Outras cidades como Maceió, Rio de Janeiro, Curitiba e Recife também tinham protestos semelhantes agendados para essa terça (1º).

A repercussão do atropelamento coletivo não se limitou, porém, ao território brasileiro. Um evento semelhante foi programado para ocorrer em Buenos Aires (ARG), com encerramento na embaixada brasileira da capital argentina. Antes do início do ato, estava prevista a redação de uma carta de apoio aos ciclistas gaúchos.

Atropelador está internado em clínica, diz advogado


Advogados que atuam na defesa de Ricardo José Neis, condutor do Golf preto que atropelou dezenas de ciclistas na última sexta-feira (25) em Porto Alegre, confirmam que seu cliente internou-se em uma clínica da capital. O acusado, que atua como analista na sede do Banco Central em Porto Alegre, tem dois pedidos de prisão preventiva contra si. Segundo o advogado de defesa Jair Antônio Jonco, o seu cliente está “muito abalado” com a repercussão do caso, e precisa de acompanhamento para prevenir “um surto”. Boatos não confirmados dão conta de que a clínica está localizada no município de Alvorada, região metropolitana de Porto Alegre.

Em depoimento, Ricardo Neis alegou estar sendo agredido por integrantes do Massa Crítica, e que o atropelamento coletivo foi consequência da tentativa de fugir de um possível linchamento. A explicação não convenceu o delegado Gilberto Montenegro, encarregado das investigações. “Ele pode ser indiciado pelo artigo 121 (Código Penal), por tentativa de homicídio duplamente qualificado, por motivo fútil e com redução de defesa das vítimas, por ter sido um ataque pelas costas”, declarou o delegado, em entrevista coletiva concedida na manhã de terça-feira (1º).