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Acordo entre Hamas e Fatah, rompidos desde 2006, anima a luta por um Estado palestino


04/05/2011

Dafne Melo

de La Matanza (Argentina)

Após cinco anos de intensificação da rivalidade, dois dos partidos mais importantes da Palestina – Hamas e Fatah – fecharam oficialmente um acordo, na segunda-feira (02), e deram um importante passo rumo à construção da unidade na luta pela construção do Estado palestino.

Na verdade, o espaço de negociação entre os dois grupos existe há quatro anos, mas somente agora houve definições significativas. Entre elas, a formação de um governo único e compartilhado e a convocação de eleições parlamentares e presidenciais no prazo de um ano.

Além de Hamas e Fatah – que governam a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, respectivamente – mais 11 organizações assinaram o acordo, entre elas, Jihad islâmica, Frente Popular pela Libertação da Palestina, Frente Democrática pela Libertação da Palestina e Partido do Povo Palestino.

Uma cerimônia oficial foi realizada nesta quarta-feira (04), com a presença do presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP) Mahmoud Abbas, do Fatah, e o líder do Hamas Khalid Mash’al.

“O obstáculo [para um acordo] sempre foi a conjuntura política. Agora, há muitas coisas mudando que pressionam ambos os lados a um acordo”, afirma Fuad Kokali, do Fatah, que emenda: “Para o Fatah é bom, é o que necessitamos, e, para o Hamas, não há outras alternativas”.

Israel encurralado

A reação do sionismo ao acordo foi imediata e, como esperado, contrária. Para o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, “o acordo entre Hamas, que chama a destruir o Estado de Israel, e o Fatah, somente pode causar preocupação aos israelenses e a todos aqueles que, em todo o mundo, aspiram a que se chegue à paz entre nós e os vizinhos palestinos”. O jornal israelense Haaretz noticiou que o primeiro-ministro deverá se reunir nos próximos dias com equipes dos Estados Unidos e Europa para que pressionem a ANP. O ministro da Economia de Israel, Yuval Steinitz, ameaçou não fazer as transferências de dinheiro à ANP, referente a impostos cobrados em regiões de fronteira.

Para Ibrahim e Connie Hackbarth, do Centro Alternativo de Informação (AIC, sigla em inglês; organização que atua na Palestina), o fracasso das negociações com Israel, sempre em posição intransigente, é um dos fatores que ajuda a impulsionar o acordo. “Nenhuma das promessas políticas de Annapolis [processo de negociação iniciado entre Israel e ANP-Fatah, em 2007, logo após o triunfo do Hamas nas eleições de 2006] foram cumpridas, enquanto Israel continua seu processo de expansão de colônias em toda a Cisjordânia”, escreveram em artigo.

A pá de cal desse processo se deu em fevereiro deste ano, quando o governo estadunidense – que participava das negociações – vetou, no Conselho de Segurança da ONU, uma resolução que condenava a ocupação israelense na Cisjordânia. Cada vez mais sem possibilidade de negociar, o Fatah, hegemônico na ANP, passou a almejar um acordo interno.

Conjuntura

A reação dos EUA ao pacto foi afirmar que “qualquer governo palestino deve aceitar os princípios do Quarteto [EUA, ONU, União Europeia e Rússia] e agir de acordo com acordos já firmados”. Para Fuad Kokali, “eles [israelenses] devem entender que esse acordo é de nosso interesse, como palestinos. Eles não podem interferir em nossa política interna”.

O integrante do Fatah ainda avalia que o acordo põe por terra um dos argumentos de Israel para não reconhecer o Estado palestino. “Eles dizem que nós não estamos prontos para ter um Estado, pois não teríamos unidade. Israel entra, agora, em um beco sem saída. O acordo, além de tudo, nos coloca em uma posição menos vitimizada, e retomamos a posição de um povo que luta por sua autodeterminação”.

Luta essa que, devido aos últimos acontecimentos no mundo árabe, ganham nova força. Para Nassar Ibrahim e Connie Hackbarth, a revolução democrática no Egito (país onde ocorrem as reuniões entre Fatah e Hamas) serviu de catalisador para um acordo entre as duas forças. “O Fatah entendeu que o equilíbrio de poder no Oriente Médio está mudando, e o Egito que saiu da sombra de Mubarak está reivindicando seu papel histórico como líder do mundo árabe. Não é à toa que o Egito promoveu a reconciliação entre Fatah e Hamas”.

Para os analistas, uma demonstração de que o Egito deverá jogar outro peso é a decisão de abrir a fronteira que possui com a Faixa de Gaza, além de reavaliar o preço de venda de seu gás natural a Israel.

Desafios

Acordo selado, resta saber se, na prática, irá funcionar. Analistas acreditam que, para além das eleições, é necessário que as duas forças continuem mantendo a participação de outros movimentos e partidos e caminhem rumo à criação de um Estado palestino.

“Se o acordo se tornar uma espécie de ‘compromisso de papel’ que mantém o teto baixo hoje existente no processo de negociação [com Israel], então, a crise política interna retornará, cedo ou tarde. Esse acordo pode ajudar a promover os direitos dos palestinos e, ao mesmo tempo, reforçar a resistência e a liberação nacional?”, perguntam Nassar e Hackbarth.

O Fatah é um partido de origem nacionalista e secular, enquanto o Hamas possui orientação islâmica. Eles romperam em janeiro de 2006, logo após as eleições parlamentares que deram ao primeiro 76 dos 132 assentos no Parlamento, enquanto o segundo conseguiu 43. A vitória do Hamas, considerada uma organização terrorista por Israel, EUA e União Europeia, não foi reconhecida pelas potências ocidentais.

Iniciou-se, então, um conflito armado entre os dois partidos. O Fatah expulsou o Hamas do Congresso, tomando seus assentos. Já o Hamas fixou-se na Faixa de Gaza e expulsou os integrantes do grupo rival da região.

Desde então, os palestinos possuíam dois governos: um na Cisjordânia e outro na Faixa de Gaza. As eleições deveriam ter sido feitas no ano passado, mas a ANP, muito criticada pelo atraso, postergava o processo eleitoral afirmando que de nada valiam as eleições se não houvesse um acordo entre as duas principais forças. (Com informações do Alternative Information Center e Ma’an News)