Brasil de Fato

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"A doutrina de Bin Laden não se dissipará"

Na opinião do jornalista palestino-estadunidense Ramzy Baroud, o líder da Al Qaeda “existia enquanto uma ideia”


Igor Ojeda

da Redação

Osama Bin Laden pode ter morrido. Mas não a doutrina que ele consolidou e que angariou muitos seguidores, opina o jornalista Ramzy Baroud, em entrevista por correio eletrônico ao Brasil de Fato. “A ideia era baseada no princípio de que os estadunidenses deveriam ser enfrentados coletivamente, por todos os muçulmanos, em qualquer lugar. Ele introduziu o conceito de Jihad e o definiu em um nível macrogeopolítico. Expandiu a natureza da resposta, ao alvejar tanto civis como militares, uma doutrina que não é aceita por muitos intelectuais muçulmanos, que afirmam que o islamismo já havia definido os limites da guerra, que excluíam os civis”, explica.

Para Baroud, Bin Laden era, sim, um terrorista, mas que representava o sentimento de raiva e frustração de milhões de pessoas com, especialmente, a ingerência das potências ocidentais em territórios muçulmanos. “Esta é a questão real que os EUA se recusam a tomar conhecimento: o que fez Bin Laden se tornar o que foi, e o que o permitiu obter muito apoio e seguidores”, questiona o jornalista.

Leia, a seguir, a entrevista:

Brasil de Fato – Qual sua avaliação geral sobre a operação estadunidense que supostamente matou Osama Bin Laden?

Ramzy Baroud – Obviamente, há muitos aspectos a se considerar a respeito dessa operação. É uma versão contada por um lado que tem muito interesse em garantir que a história seja construída de forma que satisfaça considerações políticas e de segurança. Nada disso pode ser confirmado por um lado realmente independente. Portanto, só nos resta adivinhar, imaginar e usar o raciocínio dedutivo para entender, sem sucesso.

Mas há outro aspecto da história que eu acho que está sendo negligenciado devido à pressa do voluntarismo militar em assassinar pessoas e jogar seus corpos ao mar. Um âncora do National Public Radio (NPR) dos EUA disse que, para entendermos o que aconteceu no Paquistão, precisamos voltar à data original: 11 de setembro de 2001. Acredito que esse é o entendimento equivocado que leva à toda confusão: o reducionismo que insiste que a história do Bin Laden começa naquela manhã sangrenta em Nova York, há quase dez anos.

Muçulmanos, árabes e muitos outros rechaçam essa narrativa, e insistem que a história pode, e deve, estar localizada em um maior e menos egocêntrico contexto, ou contextos: para os palestinos, é 1948 e 1967, as guerras e invasões israelenses que levaram ao ódio contra os outros aliados dos EUA e Israel. Poderia ser 1991, a guerra dos EUA contra o Iraque, e mais de uma década de sanções que mataram e prejudicaram milhões. Poderiam ser muitas outras datas e localidades.

Mas a arrogância militar não conhece limites. O mundo foi reduzido em termos físicos e de relevância. O poderoso decide o que é importante e o que é negligenciável. Osama Bin Laden foi um produto de uma cultura que não gostava da ocupação estrangeira e se recusava a coexistir com homens armados e uniformizados. É a mesma cultura que produziu todas essas revoluções no mundo árabe. É uma cultura que rechaça a injustiça e luta contra a opressão.

Mas Bin Laden foi tirado do contexto e posicionado no seu próprio; ele e outros terroristas da Al Qaeda se tornaram o começo e o fim da história. Isso é uma rejeição grosseira de discursos racionais históricos. Sim, Bin Laden era um terrorista, e dos bons. Mas ele simplesmente representava uma manifestação violenta e extrema de um sentimento genuíno de raiva e profunda frustração sentido por muitos milhões ao redor do mundo. Apesar de muitos muçulmanos rejeitarem os métodos de Bin Laden, eles abertamente ou secretamente se solidarizavam com suas reclamações; todas, seja a ocupação estrangeira de territórios muçulmanos, autoridades corruptas e assim por diante. Quando ele falava, sua audiência balançava a cabeça em concordância, embora sempre desejasse um método diferente de travar a guerra. Esta é a questão real que os EUA se recusam a tomar conhecimento: o que fez Bin Laden se tornar o que foi, e o que o permitiu obter muito apoio e seguidores.

Bin Laden foi um produto da história do conflito no qual os EUA e outros países ocidentais – e seus maiores aliados – foram os principais atores. Sua crueldade é um reflexo da crueldade maior que definia toda a região. Mas, novamente, existem aqueles que querem dar ênfase a certa violência, certo terrorismo e ao alvejamento de alguns civis, e excluir uma violência maior, um terrorismo maior e o assassinato de muito mais civis.


Leia toda a entrevista de Ramzy Baroud e a cobertura completa sobre a morte de Osama Bin Laden na edição impressa 427 do Brasil de Fato, que está nas bancas.