Brasil de Fato

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Fatah e Hamas próximos da unificação

Em entrevista, historiadora comenta a aproximação entre as organizações de luta do povo palestino


09/05/2011

Dafne Melo

de Buenos Aires (Argentina)

A crise humanitária na Faixa de Gaza e a inquietude na Cisjordânia impulsionaram o acordo entre as organizações palestinas Hamas e Fatah, firmado na semana passada. A opinião é da historiadora Arlene Clemesha, professora de história árabe da Universidade de São Paulo (USP),

Entre as resoluções do acordo estão a formação de um governo único e compartilhado e a convocação de eleições parlamentares e presidenciais no prazo de um ano.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Arlene fala sobre o significado do acordo e as expectativas para o ingresso da Palestina na ONU em setembro.

Brasil de Fato - Você acredita que este acordo Hamas-Fatah tem alguma relação com os últimos acontecimentos no mundo árabe, como a revolução democrática egípcia?

Arlene Clemesha - Eles estão certamente relacionados, já que as revoltas têm pressionado as lideranças árabes de inúmeros países a realizar reformas e tentar solucionar temas importantes aos olhos da população. Além disso, a queda de [Hosni] Mubarak deixou o Fatah sem um importante apoiador, e a instabilidade na Síria de Bashar al-Assad fragiliza igualmente o Hamas. A população palestina está inquieta, tem realizado manifestações contra a ocupação israelense tanto na Cisjordânia como na Faixa de Gaza. Ou seja, a unificação nacional se apresenta como uma necessidade para as várias partes, inclusive para viabilizar a mais recente estratégia política da OLP que consiste em solicitar o ingresso da Palestina na ONU em setembro próximo, como forma de criar pressão internacional pelo fim da ocupação israelense dos territórios palestinos da Cisjordânia (incluindo Jerusalém oriental) e Faixa de Gaza.

Qual o significado desse acordo para a luta contra a ocupação israelense?

Diante do fracasso do processo de paz iniciado em 1991, continuidade na expansão dos assentamentos israelenses em territórios palestinos, e impossibilidade prática e crescente de se criar um Estado Palestino, as lideranças da OLP lançaram oficialmente uma estratégia política que consiste em solicitar o reconhecimento de um Estado palestino, pela ONU, em setembro, sobre as fronteiras internacionalmente

reconhecidas de 1967, incluindo Jerusalém oriental e uma solução justa para os refugiados palestinos. Mesmo que reconhecido formalmente, o novo Estado ainda estaria sob ocupação militar israelense, mas a avaliação das lideranças palestinas é de que essa ação ajudaria evidenciar o isolamento de Israel na questão da sua ocupação ilegal dos territórios palestinos.

Para possibilitar que o pedido de reconhecimento do Estado palestino seja aceito pela grande maioria dos países membros da ONU, a unificação nacional é fundamental. Se a aceitação da Palestina na ONU de fato pressionaria Israel a terminar sua ocupação é muito questionável, mas o fato é que tem causado receio por parte do governo de ocupação. Sob tal impacto, Israel já anunciou que irá propor muito em breve um novo plano de paz aos palestinos, resta ver que condições irá oferecer. Deve-se notar que a postura do Hamas de condenação da morte de Bin Laden poderá prejudicar a unificação nacional e certamente contribui para justificar a postura intransigente israelense de anunciar que não irá reconhecer com um governo palestino onde haja a participação do Hamas. Inclusive, como sintoma imediato da sua determinação, suspendeu o repasse dos impostos e taxas de aduanas legalmente pertencentes ao governo palestino, numa ação que lembra em muito o boicote de 2006 ao governo palestino eleito, e que na ocasião levou justamente à ruptura nacional entre o Fatah e o Hamas.

Hamas e Fatah já haviam feito acordos antes. Qual é a diferença desse novo acordo?

O contexto é muito diferente e hoje ambas as partes sentem uma necessidade muito maior de unificação, coisa que não sentiam antes. A Faixa de Gaza está sofrendo uma crise humanitária prolongada e uma deterioração social que têm fomentado o surgimento de pequenos grupos islâmicos de oposição ao Hamas e, inclusive, mais radicais do que este. Na Cisjordânia, o movimento da sociedade civil também pode irromper a qualquer momento em uma nova Intifada. A unificação nacional, e a adoção de uma estratégia de luta comum, que possa pelo menos por hora, unificar tanto a OLP (notadamente o Fatah), o Hamas e a sociedade civil (representada em ONGS principalmente) pelo fim da ocupação tornou-se necessidade para a própria preservação das atuais estruturas políticas existentes.


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