Brasil de Fato

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Ataques noturnos em Bil’in

Susto? Ameaça? Medo? Pobres soldados... Não conhecem a força moral dos palestinos



Baby Siqueira Abrão
Parallaksis




Eram quase oito horas da noite e a Lua brilhava no céu da Palestina, enquanto, atrás das montanhas, o Sol ainda deixava ver o azul acima de nossas cabeças e uma mistura de cores no horizonte: vermelho, violeta, amarelo, anil…

A atmosfera fresca convidava a um passeio, e saí para namorar aquele começo de noite. Na primeira curva encontrei Haitham al Khatib, cinegrafista de Bil’in, responsável por registrar tudo que acontece na vila. Ele, gentil como todo palestino, protetor como todo muçulmano, decidiu me acompanhar. Fomos conversando pela estradinha que leva ao muro e paramos na casa de outro amigo, Abu Rane, para um bate-papo gostoso regado a chá. O genro já estava na sala, os filhos foram chegando do trabalho, e lá fora a escuridão ia tomando conta do amplo pátio frontal.

Então o celular de Haitham tocou. Um vizinho avisava que os soldados israelenses haviam entrado na vila. Haitham ligou para casa, pedindo que alguém lhe trouxesse a câmera, e fomos, nós dois, aguardá-la na estradinha. Não demorou muito para que ouvíssemos o barulho do motor dos jipes do exército israelense. Afastamo-nos para lhes dar passagem e, surpresos, vimos que eles entravam no pátio da casa de Abu Rane. Dirigimo-nos imediatamente para lá.

Os jipes pararam no caminho de terra que leva ao pátio e cerca de dez soldados, armados com metralhadoras, desceram. A maioria foi para a casa de nosso amigo e de sua filha, que mora na casa vizinha. Apressamos o passo mas fomos barrados por um jovem soldado, que, metralhadora apontada para nós, gritou, em hebraico, que não podíamos avançar. Paramos. Fui para a beira do caminhozinho, a fim de ter melhor visão do que acontecia na casa. O soldado me seguiu, mexendo na arma, como se isso pudesse me assustar. Não assusta. Quem viveu a truculência da ditadura militar brasileira imunizou-se contra exércitos em geral. Foi a nossa vacina contra o medo.

Por isso continuei andando até conseguir ver que as mulheres da família, bebês no colo, enfrentavam os soldados, impedindo-lhes a entrada em suas casas. Sete homens, metralhadoras em punho, não conseguiram vencer a barreira formada por três jovens muçulmanas. Quinze minutos depois desistiram a voltaram para os jipes. Nesse momento Haitham e eu ignoramos solenemente o soldado que nos impedia os movimentos. Corri para trás dos jipes, a fim de ver se eles estavam levando alguém da casa, enquanto Haitham seguia para a varanda onde estavam as mulheres e Abu Rane.

Não, ninguém fora preso… ainda. Enquanto a vizinhança se aproximava, tirando fotos (nos tribunais israelenses, os juízes pedem provas como fotos e filmes), e a câmera de Haitham chegava, trazida por um amigo, Abu Rane entrou no velho furgão branco, seguido pelo cunhado, por dois filhos e um neto, um garoto de cerca de 11 anos. Haitham e eu pulamos para dentro do carro. Ele filmava a estrada e os jipes, mais à frente. Eu compreendia que os homens da família Burnat tinham sido convocados para comparecer a algum lugar, aonde os dirigiam os veículos israelenses.

O furgão parou ao lado do grande portão pintado de amarelo que leva ao outro lado da cerca. Todos descemos e fomos para lá, mas só Abu Rane, os filhos Mohamad e Ahmad Burnat, e o genro Ahmad Mansoor Baitello puderam passar. Os soldados barraram Haitham, gritando com ele por estar filmando tudo, e a mim e ao garoto, que a essa altura eu já abraçava, tentando lhe passar calma e segurança. Fomos proibidos de seguir adiante. Mas, assim que os soldados se afastaram, levando nossos amigos, avançamos, registrando tudo com a filmadora. Quando eles sumiram da nossa vista, virando à direita, voltamos, seguidos pela luz intensa que vinha do alto da torre, onde uma câmera de longo alcance seguia nossos passos. Não resistimos: acenamos para ela.

Então Haitham me explicou o que acontecera (ele conversara em hebraico com os soldados, e eu ainda não entendo a língua). Os soldados disseram que alguém cruzara a cerca e que a câmera da torre só conseguira fotografar a sombra dos pés desse alguém. Então eles queriam ver se os pés dos detentos cabiam na sombra. Uma Cinderela às avessas.

Olhei bem para a cerca alta e eletrificada e perguntei como uma pessoa conseguiria “cruzá-la” sem a máquina do teletransporte de Jornada nas Estrelas. Perguntei também como uma câmera de alta definição conseguira fotografar apenas a sombra dos pés daquele alguém. Tratar-se-ia de um fantasma? Não. Fantasmas atravessam cercas, eletrificadas ou não, mas não deixam rastros nem sombras. Nisso são iguais aos vampiros.

– É mentira deles, armação – explicou Haitham. – Fazem isso para assustar a vila, ameaçar as pessoas, espalhar medo.

Susto? Ameaça? Medo? Pobres soldados… Não conhecem a força moral dos palestinos.

Enquanto mais homens do exército se aglomeravam do lado de lá da cerca, fui até ela para que Haitham fingisse filmar apenas a mim, enquanto registrava também a presença dos soldados. Comecei a contar o que acontecera, o que meus olhos tinham visto e meus ouvidos, escutado. Saímos de lá para averiguar o que eram os foguetes que outros soldados lançavam na parte baixa do morro e que incendiavam as plantações palestinas. Descobrimos que havia dois tipos de foguetes: os que caíam e provocavam fogo e os que permaneciam no alto, iluminando as montanhas quase como se fosse dia. Armas de guerra, companheiras e companheiros. Com um cheiro horrível. Minha garganta ainda está seca, muitas horas depois. O vento carregou o cheiro para a vila. Fechei os vidros das janelas e mesmo assim moléculas do gás entraram em casa.

Abu Rane voltou, mas os outros homens não. Fui ia até a cerca e indaguei o que acontecera com eles. Só obtive resposta depois de uma longa espera. E a resposta foi que eu devia sair dali, pois estava em zona militar e em território israelense. Segurei o riso. Território israelense, a Palestina? Fiz questão de dizer as palavras certas: território ocupado por Israel de maneira ilegal, segundo as leis internacionais. Mito sionista pra cima de mim? Logo eu, que estudo o sionismo há anos? Fui ameaçada, mas, se a intenção era me amedrontar, eles falharam. Não alterei a voz, não perdi a educação nem o respeito. Disse o que achei que devia dizer. O vídeo registrou tudo.

Quando tomei o caminho de casa – sempre escoltada por Haitham –, às 10 da noite, Mohamad e os dois Ahmads ainda estavam detidos. Amanhã terei mais informações e postarei os linques das fotos e do vídeo que Haitham ainda está editando.

Eu diria que minha primeira experiência com as night raids ficou muito longe de um batismo de fogo. Não senti medo, não tremi nem mesmo de indignação. Senti foi muita pena daqueles rapazes, adolescentes, alguns com espinhas no rosto, já aprendizes da crueldade e da truculência sionistas. Alguns escapam quando entendem quanto foram manipulados. Grande parte escapa pelo suicídio: o exército israelense tem as taxas mais altas de suicídio do mundo. Eles podiam estar confraternizando com os amigos. Mas estão metidos até o último fio de cabelo no perigoso jogo da guerra. Uma guerra que é só deles, contra eles mesmos. São eles seus próprios inimigos. Uma boa dica para entender isso é a leitura de “O juiz e seu carrasco”, de Dürrenmatt.