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“Quando as máquinas param”, de Plínio Marcos, mostra toda a força do "maldito" como dramaturgo

Confira a conversa que o Brasil de Fato teve com os atores e o produtor da peça





Karina Búrigo



Joana Tavares e Aline Scarso,

da Redação

“Quando as máquinas param” é uma peça de Plínio Marcos, ator, dramaturgo, escritor, funileiro, palhaço, contrabandista de cigarro e rádio de pilha, editor de seus próprios livros, “maldito” para a ditadura civil-militar, divulgador do samba, leitor de tarô, tradutor fiel e brutal das falas e conflitos do povo brasileiro.

Encenada pela primeira vez em 1963, “Quando as máquinas param” volta agora aos palcos dirigida pelo filho de Plínio, Léo Lama. A produção é de Max Mu.

A peça tem apenas dois personagens – Zé, um torcedor fervoroso do Corinthians que está desempregado, e Nina, sua esposa e companheira – interpretados por Rodrigo Caldeira e Kelly di Bertolli da “Companhia Um Brasil de Teatro”. “Quando as máquinas param” é composta quase que totalmente de diálogos, simples e fortes, sobre a realidade dura do casal e de seus vizinhos.

Confira a conversa que o Brasil de Fato teve com os atores e com o produtor da peça, que está em cartaz no Teatro Zanoni Ferrite até dia 22 de maio, na Vila Formosa, em São Paulo.

Brasil de Fato: Por que vocês escolheram montar esse texto do Plínio Marcos?

Kelly: Eu acho este um texto brilhante do Plínio Marcos. E, além disso, super atual. Quer dizer, não se pode nem amar, porque tudo é o mundo do trabalho. Se o cara não tem trabalho, é uma tragédia. Então pela atualidade, por essa tragédia infelizmente ser atual, é um texto que dá vontade de montar.

Robrigo: Pra mim, o que é mais forte na reflexão da peça é até onde o dinheiro e a falta dele limitam as pessoas a fazerem qualquer coisa. Eu lembro que uma vez, conversando com o Max, entramos numas discussões de liberdade. Eu, como socialista, não acredito que houve socialismo em nenhuma parte do mundo, talvez apenas em pequenas comunidades, e a gente começou a discutir a liberdade de ir e vir. Eu questionei Cuba, por exemplo, onde as pessoas são proibidas a sair do país, com algumas exceções. E o Max falou, ‘mas, e o cara que não tem dinheiro, que é proibido de sair do bairro dele?’ No nosso sistema, se o cara está desempregado, fudido, e não tem dinheiro, não tem como pegar um busão para ir para o centro. A falta de dinheiro vai limitando as pessoas de uma forma, é quase como se você não desse opção para a pessoa. Então para mim, a maior reflexão é essa, até que ponto você é limitado pela ausência da grana.

Kelly: Porque quando as máquinas param, o que acontece? A gente faz essa brincadeira porque a Nina e o Zé ficam parado em cena, mas quem parou foram as máquinas. Mas quando as máquinas param, o ser humano para. A gente vive numa engrenagem tão absurda, que não dá para existir sem estar envolvido com o capital.

Como vocês estão sentindo a reação do público?

Kelly: As pessoas acabam se envolvendo com a história e criando uma opinião sobre o texto. É um teatro contemporâneo, então a gente tinha esse medo: e agora, como vai ser a reação do público? As pessoas incrivelmente se envolvem com a história. Interessante porque a gente não esperava.

Como vocês veem essa apropriação do Plínio Marcos? Em São Paulo, outras peças dele também estão em cartaz como “Navalha na Carne”. Vocês acham que está tendo uma retomada do autor?

Kelly: Na verdade eu sinto que nunca parou de se fazer Plínio Marcos. E, assim, não dá dinheiro também. Não é de apelo comercial, mas as pessoas estão sempre fazendo. É só ver o teatro brasileiro, no Brasil todo tem gente fazendo Plínio Marcos. Inclusive “Quando as máquinas param”, um amigo meu me mandou uma mensagem perguntando se a gente estava no interior, em tal lugar. E eu falei, não. A gente nem estava sabendo que tinha essa outra montagem, nem o Leo, nem os outros filhos do Plínio.

Max: Eu gosto muito do Plínio. Entre os dramaturgos da geração dele, eu acho que ele se destaca. Muita gente quando lê seus texto acha o Plínio superficial e bruto, mas ele tem suas delicadezas. Ele toca em pontos que você percebe a construção de um todo. Ele monta suas peças de um jeito que você critica a sociedade, você vive a história do homem, sem ser panfletário, nem melodramático.

Como vocês veem o teatro como denúncia social e seu potencial transformador? Como vocês veem isso nesta peça?

Max: Eu não sei se é isso que você questionou, mas eu estou curioso agora em saber como o público mais adolescente reagiria ao assistir a peça. Na época do Plínio, as pessoas entravam no crime por opressão. Hoje já virou até uma questão de status ser de uma rede criminosa, numa periferia. Por isso, gostaria de ver como a juventude de periferia reagiria a essa peça, até para saber como eles veem esse potencial de transformar sua realidade. Olha a situação do Zé, que não estudou, não tem um ofício e não se desenvolveu…

Rodrigo: O fato de as pessoas refletirem pode, de alguma forma, transformar a forma dessas pessoas pensarem.

Max: O Plínio Marcos foi um oprimido. Se você pensar no Zé, ele tem uma consciência. Ele deve ser alguma coisa do sindicato porque ele tem uma consciência de que é uma das engrenagens do sistema, mas uma das engrenagens que pensam.

Como vocês veem a ausência de produções teatrais, cinematográfica e de literatura que retratam a classe trabalhadora?

Kelly: Eu acho que ainda tem muitos grupos trabalhando com essa temática, mas o que acontece é que não há divulgação.

Max: Aqui nós somos um grupo, e as pessoas parceiras são pessoas engajadas, ligadas a grupos que refletem isso. Mas em geral, o que tem dominado as salas de teatro são textos mais subjetivos e de comédia. O Plínio Marcos, o [Gianfracesco] Guanieri, o [Augusto] Boal eram extremamente oprimidos pelo Estado brasileiro, e naquele momento [da ditadura civil-militar] a arte protestava, era a principal aliada dos artistas. E o teatro era uma ferramenta de manifestação política. Hoje em dia, você só tem entretenimento mesmo, peças com ingressos que custam R$ 150 mesmo financiadas pela Lei Rouanet. É o capital que venceu na maioria dos espaços. Ninguém do outro lado tem acesso à divulgação.

Kelly: Mas tem gente fazendo. O Léo Lama mesmo está fazendo uma peça que chama “Uma peça sem patrocínio”. O Rodrigo, com o outro grupo dele, discute a questão dos sem-teto. De uma certa forma, está todo mundo duro aqui porque trabalha com a questão do trabalhador.

Rodrigo: Eu acho assim, para quem faz arte de forma séria, a arte realmente é um reflexo da sociedade. O Shakespeare fala de reis, o Moliére dos nobres, o Plínio Marcos fala da ralé que ele viveu. Aí quando você pega o Teatro Arena no fins dos anos 1950, a questão da luta de classes, a revolução armada estavam à flor da pele. Então as pessoas queriam falar sobre isso, fazer peças sobre isso. Era disso que se falava nas ruas. Hoje, quem é que fala de luta de classes nas ruas? A gente é exceção. Está cada um tão mergulhado no seu problema, na sua dificuldade, no seu dinheiro… O ser humano está entrando num processo de individualização tão grande, que está sem tempo de pensar e refletir a sociedade, e isso reflete na arte que o artista está fazendo.

Kelly: Esses stand-up comedies, por exemplo, são cheios de preconceito contra gays, nordestinos, mulheres e o pessoal ri, ri e só ri. Não estou falando que não é legal comédia, mas isso que vocês falaram é verdade. Então não tem teatro para o trabalhador? Claro que tem. Mas onde é que ele aparece? Não aparece. E o próprio trabalhador não vai.

Max: E tem outra questão: que tipo de teatro consegue estrutura e dinheiro? As coisas que conseguem mais público são as mais boçais e mais alienantes. O que você faz de conscientização e militância fica à mercê de prêmios públicos, aí depende de quem é o gestor, ou fica à mercê da sua própria militância. Para você ter a Lei Rouanet, você precisa ter visibilidade e para ter visibilidade, precisa ser medíocre.

<SERVIÇO>

Quando as Máquinas Param” de Plínio Marcos

Direção: Léo Lama

Elenco: Kelly di Bertolli e Rodrigo Cladeira

De 15/04 até 22/05/2011

Local: TEATRO ZANONI FERRITE (Biblioteca Paulo Setubal)

SEXTA e SÁBADO ÀS 20 HORAS

DOMINGO ÀS 19 HORAS

Av. Renata, 163 - Vila Formosa – Zona Leste