Brasil de Fato

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Uma agência de jornalismo para investigações

Em entrevista, a jornalista Tatiana Merlino fala sobre a proposta de trabalho da Pública, jornalismo investigativo e a parceria com o Wikileaks


Aline Scarso
Da Redação

Ela é a agência de jornalismo brasileira que Julian Assange, editor do site Wikileaks, anunciou como parceira para publicar os documentos da embaixada dos Estados Unidos que envolvem o Brasil.

A Pública – Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo, ou simplesmente A Pública, já divulgou nessa semana assuntos polêmicos como a crença da China na incapacidade do Brasil para ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e os calorosos elogios do presidente da construtora Cyrela, Eli Horn, ao ex-presidente Lula pelo “boom imobiliário”.

A iniciativa de montar a agência partiu das jornalistas Tatiana Merlino, Natalia Viana e Marina Amaral, que se juntaram para fazer jornalismo sem as amarras editoriais da grande imprensa. Em entrevista ao Brasil de Fato, Tatiana Merlino fala sobre a proposta de trabalho da Pública, jornalismo investigativo e a parceria com o Wikileaks.

O que A Pública traz de novo para o jornalismo investigativo brasileiro?

Tatiana Merlino: É um modelo que ainda não existe aqui, e sim nos Estados Unidos, países da Europa, e alguns da América Latina, como Chile e Peru, onde agências e centros de jornalismo investigativo dedicam-se exclusivamente a fazer reportagens de interesse público, investigativas, de fôlego, longo prazo e sem vinculação direta com grandes grupos de comunicação. Embora haja excelentes profissionais investigativos na imprensa brasileira, a crise financeira dos jornais da grande imprensa e a falta de recursos da imprensa alternativa vêm impossibilitando que repórteres se debrucem por vários meses em uma história.

A agência é uma seção brasileira do site Wikileaks?

Não, o Wikileaks é um dos parceiros da Pública. Como a Natália Viana foi a jornalista que trouxe os documentos do WilkiLeaks para o Brasil, nós fechamos uma parceria com eles, no que chamamos de semana WikiLeaks, quando fizemos um “mutirão” com jornalistas amigos para ler 2500 documentos referentes ao Brasil, do período entre 2004 e 2010, que ainda não tinham sido publicados no site do WikiLeaks. A proposta era dar visibilidade aos telegramas que contam questões relevantes do que se discute nas relações internacionais. A ideia é manter essa parceria.

E como tem sido a reação do público às matérias divulgadas sobre o governo brasileiro, a partir da base de informações conseguida pelo Wikileaks?

O retorno tem sido positivo, tanto dos leitores quanto da imprensa, que tem republicado as matérias. A nossa proposta é exatamente que o material seja espalhado, divulgado ao máximo, já que somos uma agência que produz reportagens de interesse público e de livre reprodução, em creative commons. A reação positiva também pode ser medida pela quantidade de e-mails que estamos recebendo, assim como a reprodução e comentário do material nas mídias sociais.

Fazer jornalismo investigativo, de forma independente, não é fácil nem no Brasil nem em qualquer parte do mundo. Como vocês irão manter financeiramente a agência?

A Pública não é uma empresa, é uma associação sem fins lucrativos. A ideia é seguir um modelo de financiamento que envolve várias fontes, que pode ser tanto de financiamento público, organizações não governamentais, fundações e organismos internacionais, como de empresas jornalísticas que se interessam por determinado assunto que estamos trabalhando. Já recebemos um apoio inicial da Fundação Ford, e estamos negociando outras formas de financiamento.

Quais são suas referências dentro do jornalismo investigativo?

De brasileiros cito o Marcos Faerman, Caco Barcellos, entre muitos outros. Entre os estrangeiros, algumas de minhas referências são o argentino Rodolfo Walsh, os estadunidenses Jon Lee Anderson, Gay Talese, John Reed, que faziam um misto de jornalismo investigativo e literário; e o britânico Robert Fisk. Como parceiros da Pública, temos vários centros de jornalismo investigativo renomados, que são referências para nós, como o britânico Andrew Jennings, da BBC, único jornalista do mundo banido pela Fifa de participar de conferências de imprensa por causa das diversas denúncias de corrupção da instituição.