Brasil de Fato

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Clarice Lispector, um coração selvagem

Seus livros sempre arrastam o leitor para dentro de um redemoinho de sentimentos, inquietações e conflitos


Lizandra Guedes

“Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas… continuarei a escrever”. Talvez essa observação, feita pela própria autora, seja a melhor forma de compreender a intensidade pulsante presente em toda a obra de Clarice Lispector. Seus livros, sejam de romance, crônica ou poemas, para adultos ou crianças, sempre arrastam o leitor para dentro de um redemoinho de sentimentos, inquietações e conflitos típicos daqueles que não aceitam simplesmente as coisas como elas são e se atiram no mundo em busca de respostas.

Clarice não se preocupa em dar respostas em suas histórias, mas sim faz com que a gente se coloque ainda mais perguntas, que o coração fique ainda mais inquieto e a cabeça gire mais rápido em pensamentos. Isso porque sua literatura pretende se lançar naquilo que há de mais radical como fonte e solução dos problemas sociais que tanto a indignavam: os seres humanos e seus corações selvagens, lembrando o nome de um de seus romances.

Injustamente, Clarice e sua obra são identificadas como apolíticas. Além de ela ter participado de inúmeras reuniões semiclandestinas e passeatas contra a ditadura civil-militar de 1964, o seu fazer artístico revela, na narrativa dos pequenos e extraordinários gestos da vida cotidiana humana, uma crença quase utópica em nossa capacidade de transformação da realidade social. “Não pensar pessimisticamente no futuro” ou ainda “tudo é passível de aperfeiçoamento”, anota a escritora.

Seu grito que parece ter ecoado mais alto contra as injustiças sociais foi o romance A hora da estrela (1977), em que Macabea, mulher nordestina, errante, subnutrida revela a dura condição humana provocada pela miséria em que vive nosso povo. Clarice afirma sobre Macabea: “A única coisa que queria era viver. Não sabia para que, não se indagava”. Já para Clarice, viver era se indignar. Um dos títulos provisórios de A hora da estrela foi Direito ao grito, revelando uma Clarice inconformada com o silenciamento forçado pela ditadura civil-militar: “Porque há o direito ao grito. Então eu grito!”. Nos somemos a ela e não deixemos que jamais nos arranquem outra vez o direito de gritar.

A obra infantil

Clarice tem um modo especial de escrever para crianças. Decerto porque não pretendesse fazê-lo, parece jamais ter ponderado muito sobre quais seriam os melhores recursos para o êxito de sua empreitada; o que explicaria a grande ousadia da autora. Seu primeiro livro infantil, O mistério do coelho pensante, uma história feita exclusivamente para seu filho Paulo, foi publicado por insistência de um editor de São Paulo, mas não tinha a pretensão de ultrapassar o ambiente familiar.

Porém, Clarice Lispector acabou criando quatro histórias encantadoras e engraçadas dedicadas às crianças: O mistério do coelho pensante, A mulher que matou os peixes, A vida íntima de Laura e Quase de verdade. Todas elas têm como personagens principais animais e, como tema, suas relações com os seres humanos, principalmente com ela, Clarice. Mas ela faz questão de nos avisar: “Não humanizo bicho, porque é ofensa – há de respeitar-lhe a natureza –, eu é que me animalizo”.

Pequena biografia

Clarice Lispector nasceu em Tchetchelnik, na Ucrânia, em 10 de dezembro de 1920. Chegou ao Brasil com seus pais, fugindo da perseguição aos judeus, quando tinha dois meses de idade. Naturalizada brasileira, sempre que questionada sobre sua nacionalidade, dizia pensar e sentir em português e que sua verdadeira pátria era o Brasil: “naquela terra [Ucrânia] eu literalmente nunca pisei: fui carregada de colo”.

Passou sua infância no Nordeste, entre Maceió e Recife, e aos 15 anos mudou com seu pai e irmãs para o Rio de Janeiro. Fez Direito, casou-se com o colega de turma Maury Gurgel Valente, diplomata, e, por isso, morou em diversos países. Voltou definitivamente ao Brasil em 1959, com os dois filhos, Paulo e Pedro.

Autora de nove romances e diversos livros de contos e crônicas, Clarice ainda foi uma das primeiras mulheres a atuar como jornalista no Brasil, escrevendo, sempre com pseudônimos, em colunas dedicadas às mulheres nos jornais cariocas como O Comício e Correio da Manhã. Pouco tempo depois da publicação de A Hora da Estrela, descobriu um câncer inoperável no ovário. Faleceu um dia antes de seu 57° aniversário, em 9 de dezembro de 1977.

Lizandra Guedes é militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) de São Paulo.