Brasil de Fato

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Caio Fernando Abreu: o cara do Face

Da próxima vez que estiver em público, puxo um Dostoiévski. Duvido que ele também tenha perfil fofo no Face








1º/03/2012

Maykon Souza

Cena de Onde andará Dulce Veiga, adaptação cinematográfica

do livro homônimo de Caio Fernando Abreu - Foto: Divulgação

No Shopping, puxei o livro da mochila e percebi que estava sendo observado. Mal virei a primeira página e ela se aproximou. Devia ter uns 20 anos. Ficou se contorcendo, tentando ler o nome que estava na capa. Conseguiu:

– Ai, que legal…

– O quê?

– Ele tem livro?

– Como assim?

– O Caio tem livro…

– Que Caio?

– Esse que você tá lendo…

– Tem… vários… um dos maiores escritores do Brasil…

Ela não acreditou muito.

– Caramba… achei que ele era só o cara do Face.

– Cara do…?

– Face… Facebook… internet… cê tem, né?!

– Tenho, tenho…

– Ele também.

– Quem?

– O Caio… tem um perfil todo fofo… Ele escreve cada coisa bonita.

– O Caio?

– Claro, pô. Não é dele que a gente está falando?!

– É que é impossível ele ter perfil.

– Por quê?

– Ele morreu…

– Impossível ele ter morrido!

Chegamos num impasse. Ela virou para o outro lado, como que digerindo a informação. Depois de um tempo, indignada:

– E quem atualiza o perfil dele, então?

– Ele é que não é.

– Cê ta brincando… não deve ser o mesmo… morreu de quê?

– Aids.

– Aids??? Então, ele era velhão?

– Velhão?

– É, ué! Aids não é aquele negócio que dava nos anos 80?

Novamente, um impasse. Dessa vez, eu é que virei para o outro lado para digerir a informação.

– Lê um pedaço aí pra mim.

– Qualquer um?

– É.

– Lá vai: “Aquele negrão, sabe aquele negrão de cabelo rastafári que fica sempre ali no Quênia’s Bar? Aquele que vende fumo, diz que tem vinte e cinco centímetros, já pensou? Isso não é uma jeba, é uma jiboia. Até vinte aguento numa boa, até o cabo. Vinte e cinco não sei, tenho até medo. Pode rasgar a gente por dentro, sei lá”.

– Ele escreveu isso?

– Sim.

– O Caio?

– Claro, pô. Não é dele que a gente está falando?!

Ela se levantou, indignada:

– Ele escreve coisas fofas, não isso aí. Ele fala de amor, esperança, sorriso. Coisas pra valorizar a gente. Ele tem frases que se encaixam em todos os momentos da vida da gente.

– Isso é Minutos de Sabedoria, não Caio Fernando Abreu.

– Minutos de quê?

Reparei que outra garota tinha se aproximado. Resolveu entrar na conversa:

– Que foi?

– O cara aí tá dizendo que conhece o Caio.

– Que Caio?

– O do Face!

– Ah, tá… prefiro a Clarissa…

– Que Clarissa?

– Ah, sei lá. Acho que é Espectro.

– Não é Clarissa, é Clarice, sua burra!

Começaram a tirar sarro uma da outra e se foram sem dar tchau.

Da próxima vez que estiver em público, puxo um Dostoiévski. Duvido que ele também tenha perfil fofo no Face.

O trecho foi extraído de uma frase da personagem Jacyr, do livro Onde Andará Dulce Veiga?, publicado em 1990

Maykon Souza é autor do blog Amenidades Crônicas (http://amenidadescronicas.blogspot.com)