Brasil de Fato

Uma Visão Popular do Brasil e do Mundo

Grupo político de fazendeiros se aproveita de conflito

A terra é poder nas mãos dos latifundiários de Itaju do Colônia


Renato Santana

de Itabuna (BA)

Itaju do Colônia é o município com o maior número de fazendas incidentes na Terra Indígena Caramuru-Paraguassu, dentre as cidades que abrangem o território Pataxó Hã-Hã-Hãe. São 53 no total e de essência pecuarista, característica importante para se entender a razão da concentração dos conflitos na região. Em Itaju, o núcleo duro dos invasores está encurralado, pois são os grandes latifundiários, com maior quantidade de porções de terras, diferente da maioria, que já saiu da terra indígena por não possuir título de posse ou por considerar equivocado se manter no local. Em Itaju estão os grandes inimigos dos índios, entre eles Marcos Sobral, detentor de cerca de oito mil hectares de terras indígenas e ex-prefeito do município pelo Democratas (DEM), Paulo Magalhães, da família de ACM - que controla a transmissora da Rede Globo na Bahia, além de rádios e jornais -, e Jaime do Amor, um dos maiores pecuaristas baianos.

Esse mesmo grupo é acusado pelo prefeito de Itaju, Padre Ednaldo (PT), de fazer terrorismo na região, vinculando a imagem de indígenas a criminosos, invasores de terras e que só trarão miséria para o município. Além disso, comumente espalham boatos de que os indígenas vão invadir a cidade. “Eles têm feito campanha dizendo que eu não me posiciono ao lado deles, porque apoio os índios. Aqui os prefeitos sempre foram fazendeiros ou atrelados a eles. Temo pela minha vida, ainda mais com tanto pistoleiro por aí”, declara Padre Ednaldo. O prefeito concorda que de fato o clima é tenso na cidade. Sobretudo pelo fato de um bairro inteiro, o Parque dos Rios, ser fruto de invasão dos 54 mil hectares demarcados aos indígenas.

“Com essa questão, o grupo dos fazendeiros chega para os moradores dizendo que os índios vão tirá-los à força dali a qualquer momento e que eu, como prefeito, apoio os índios”, explica. Para o prefeito, os moradores ficam aflitos, pois a qualquer momento algo pode acontecer dada a quantidade de pistoleiros na cidade. Essa é outra face do conflito entre indígenas e invasores. Conforme o prefeito, os fazendeiros usam a disputa com os olhos sobre as próximas eleições municipais. Marcos Sobral é pré-candidato a prefeito. Na Câmara dos Vereadores, os parlamentares que o apoiam atacam os índios na tribuna e sempre os associam ao prefeito.

“O presidente da Câmara, o vereador Juscelino Almeida (PSB), disse que eu estava ao lado dos índios, porque tenho interesse em terras. Chegaram a me envolver na morte de Ana Maria, dizendo que foram os índios e que eu os apoio”, afirma.

O prefeito fez críticas ao delegado da Polícia Civil Francesco Denis Santana. Padre Ednaldo recebeu com estranheza algumas declarações do policial, que ainda com a investigação do assassinato de Ana Maria em curso contradisse versões sobre os supostos autores. “Isso não ajuda a pacificar as tensões”, diz. Como prefeito, Padre Ednaldo entrou com três pedidos de transferência do delegado, mas não obteve resposta. Dada a situação geral, o prefeito espera que de uma vez por todas o governador intervenha no problema dentro daquilo que é de responsabilidade do Governo da Bahia.

Desenvolvimento regional

Padre Ednaldo acredita que a permanência dos indígenas nas terras não vá piorar a situação da economia da cidade. Ao contrário do que é dito pelos fazendeiros, o prefeito de Itaju do Colônia aponta que a região não é mais uma bacia leiteira, porque o gado passou a ser para o corte. “De qualquer forma, a pecuária não traz tanto desenvolvimento quanto a agricultura familiar. Os recursos não ficam no município e a empregabilidade não é alta”, analisa. Porém, prevê uma queda no ICMS, mas como aconteceu na vizinha cidade de Pau Brasil a presença dos indígenas tende a melhorar o comércio com a agricultura num ciclo de abastecimento do município.

“Pau Brasil é um exemplo de como a presença indígena não representa atraso e miséria. Itaju do Colônia apenas está em vias de mudar o paradigma, como já aconteceu outras vezes, quando deixamos de ser uma bacia leiteira para ser lugar de pecuária de corte. Isso sim foi ruim. Os primeiros anos são sempre os mais difíceis, mas depois melhora”, avalia. Para ele, o município sempre enfrentou dificuldades tendo um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do estado. Portanto, a situação abarca todas as décadas de presença dos fazendeiros na região. Itaju nunca teve muitas fontes de renda, dependendo do Fundo de Participação dos Municípios.