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“A Vale está de olho no último diamante de Minas”

Em entrevista, a militante e artesã Maria Teresa Viana de Freitas Corujo afirma que a Serra do Gandarela pode se tornar a segunda Carajás do país


Joana Tavares,

de Belo Horizonte (MG)

A Vale está interessada em uma região ainda intacta do estado de Minas Gerais: a Serra do Gandarela. Segundo a militante e artesã Maria Teresa Viana de Freitas Corujo, a Teca, do Movimento pela Preservação do Gandarela, a serra pode se tornar a segunda Carajás do país. Ou pode, se a luta dos movimentos for vitoriosa, se transformar em um parque ecológico, garantindo o abastecimento de água limpa, a preservação ambiental e a soberania do povo. A consulta pública sobre a construção do parque acontece de 7 a 12 de maio, e depende da mobilização de todos os setores da sociedade. “É fundamental trazer isso para a população, porque a grande mídia não traz. Isso está sendo feito com o máximo de invisibilidade, precisamente porque se for trazido à tona vai ter uma reação coletiva de dizer ‘não’, de dizer ‘basta’”, diz Teca.

Brasil de Fato - Como você avalia esse momento de unidade entre os movimentos sociais e sindicais para a questão da mineração?

Maria Teresa Viana de Freitas Corujo: Tenho sentido nos últimos cinco anos, e é muito rápido e crescente, um fortalecimento muito grande das redes dos diferentes movimentos e organizações. E temos percebido o quanto está sendo importante essa unidade que está sendo construída diante desse momento louco e criminoso da voracidade da mineração diante do nosso território. Em Minas Gerais isso é muito forte, porque grande parte do território é de minério, e a demanda internacional para ter a posse desse bens naturais deixa Minas completamente refém. É fundamental encontros como esse para integrar todas as frentes, e no caso da mineração essa vai ser a única saída. Porque é desesperador quando a gente olha o que eles estão pretendendo minerar, onde querem por barragens de rejeitos, os minerodutos, os ramais ferroviários, os eucaliptos… É fundamental trazer isso para a população, porque a grande mídia não traz. Isso está sendo feito com o máximo de invisibilidade, precisamente porque se for trazido à tona vai ter uma reação coletiva de dizer ‘não’, de dizer ‘basta’.

O que está em disputa na Serra do Gandarela?

O que está em disputa é precisamente essa dicotomia: a Serra do Gandarela é a última serra intacta, que não tem mineração a céu aberto, no quadrilátero ferrífero; ela é um sinclinal, que significa que tem uma quantidade enorme de água no subsolo. Na Serra nascem dezenas de cachoeiras de água especial, que não precisa nem de filtragem, ou de classe 1, que só precisa de um filtro para consumo humano. Há também uma enorme reserva de mata atlântica. Mas essa serra também é de minério de ferro, minério de ouro, e a Vale vem reservando esse espaço, comprando ao longo dos anos os terrenos, pensando que quando houvesse uma demanda internacional que justificasse uma mina daquele porte – porque seria uma segunda Carajás no Brasil – ela iria então entrar com licenciamento, porque lá não tem fácil acesso para a retirada do minério. A Vale teria que construir um ramal ferroviário de 22 km, um custo operacional muito grande que só compensaria se houvesse uma garantia de exportação desse minério. Como esse momento mundial chegou, o Gandarela está sendo disputado como o último diamante de Minas, que está sob o olhar e o desejo da Vale. Estamos lutando, dizendo ‘não’ e propondo a construção de um parque.

Como seria esse Parque?

É uma proposta de criação do Parque Nacional do Gandarela, que inviabiliza de vez o projeto da Vale. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) vai levar o tema para consulta pública do dia 7 a 12 maio. Com o parque, a Serra fica aberta à visitação, a estudos científicos, vai ser um bem comum, vai gerar emprego e renda em todo entorno, de outras formas, com muito mais sustentabilidade, para os pequenos donos de pousada, produtores de mel, artesãos, um monte de possibilidades… para sempre. E isso garantindo a preservação da maior, da única reserva de água para a região metropolitana, que tem mais de cinco milhões de habitantes. O governo estadual já teria que ter dito ‘lamento, Vale, aqui não pode’. Mas não é esse o momento atual no Brasil com os governantes em todos os níveis. O Movimento Gandarela, em unidade com outros, está dizendo ‘chega’. Não temos que minerar todo nosso minério, ainda mais para exportar para a China, pro lucro de uma minoria. Não tem o menor sentido.