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Nova eleição deve completar rearranjo político na Grécia; conheça os partidos que disputam o poder

Crise, ascensão da esquerda e decadência das duas legendas tradicionais pode provocar primeira reviravolta política no país desde a redemocratização


João Novaes,
do Opera Mundi


Com uma nova eleição marcada para 17 de junho, a Grécia terá a possibilidade não apenas de mudar sua moeda e os rumos de sua economia e integração regional. O turbilhão causado pela crise da dívida pública também poderá revolucionar seu combalido quadro político que, desde o início da Terceira República, há 38 anos, é dominado por dois partidos que se encontram em processo de fragmentação e decadência - a Nova Democracia (direita) e o Pasok (centro-esquerda).

Ao mesmo tempo em que despontam lideranças jovens como Alexis Tsipras, do Syriza, que pode colocar um partido de esquerda de fato no poder, surgem também figuras que pretendem ressuscitar doutrinas neonazistas, como a ascensão do Aurora Dourada de Nikolaos Michaloliakos.

O fato é que o país nunca teve um parlamento tão pulverizado desde que o país adotou cláusulas de barreira impedido a admissão de legendas menores. Na última eleição realizada em 6 de maio, sete partidos conseguiram representação parlamentar.

O partido mais votado na eleição legislativa grega recebe um “bônus” de 50 assentos no Parlamento, equivalente a um sexto do total de membros. Segundo pesquisas de opinião, a coligação Syriza é apontada como vencedora folgada, entre 27% e 28% de preferência. Outras a colocam com uma diferença menor em relação à ND, com um a dois pontos de vantagem. Nenhum dos quadros seria o suficiente, porém, para que ela atinja, sozinha, os 151 membros.

Pasok e Nova Democracia, os dois grandes e velhos partidos, apesar da rivalidade histórica, são os únicos que aceitam continuar a se submeter às exigências da Troika (grupo formado por Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu): medidas de rigor fiscal que incluem cortes no setor público e investimentos, congelamento de políticas de crescimento, precarização das leis trabalhistas, entre outras. Em troca, o perdão parcial da dívida e novos empréstimos para que o país não entre em insolvência. Os demais partidos, da esquerda à direita, pedem o rompimento, mesmo que isso resulte na saída da Grécia da zona do euro.

Conheça abaixo um pouco da história e das posições de cada um dos partidos que obtiveram assentos na última eleição e concorrerão novamente em menos de um mês.

ND (Nova Democracia, direita conservadora) – 108 deputados (sendo 50 como bônus)

Representante da corrente de direita e conservadora, a ND é um partido em crise por aceitar e defender as medidas de austeridade impostas pela Troika. Parte de seus integrantes saiu para formar o Anel (leia abaixo), e o partido, mesmo tendo sido o mais votado nas eleições de maio, apresentou seu pior desempenho eleitoral desde a fundação.

Foi oficialmente criado após a redemocratização, em 1974, pelos líderes da União Radical Nacional. Em sua primeira vitória, no fim do mesmo ano, adotou a estratégia do medo para se eleger, colocando-se como a única posição viável para que o país não sofresse novo golpe militar – o país ainda sofria com a invasão das tropas turcas no Chipre, fato que contribuiu muito para a queda da junta militar que governava o país.

Defende o que chama de “liberalismo radical”, o que significa, segundo o próprio partido, “a prevalência das regras de livre mercado com intervenção decisiva do Estado em favor da justiça social”. Em 2009, quando o país já se encontrava em recessão, o ND sofreu o que foi, até maio deste ano, sua maior derrota eleitoral, elegendo até então seu menor número de representantes (91).

Syriza (Coalizão da Esquerda Radical, esquerda) – 52 deputados

O Syriza é uma coligação plural de esquerda criada em 2004 cujo principal partido é o Synaspismós – este por sua vez, formado através de outra coligação plural de esquerda. O agrupamento contém um número elevado de tendências (treze legendas no total, sem contar inúmeros independentes), que incluem ativistas da esquerda ecológica, dissidentes do partido comunista grego original, laços trabalhistas oriundos de sindicatos, maoístas, trotskistas, comunistas eurocéticos, entre outros.

Sua pluralidade faz com que não adote posições ideológicas rígidas, e é considerado o mais jovem, diverso e democrático partidos internamente na Grécia. O que não significa se alijar das bandeiras de esquerda, pois adota uma postura sempre crítica às posições liberais abraçadas pelo Pasok. Recentemente, ganhou apoio do Movimento Unitário, partido formado por dissidentes do Pasok.

Um capítulo interessante de sua história ocorreu em 2008. Um tiroteio policial nos subúrbios de Atenas deixou um adolescente de 15 anos morto, o que provocou uma forte reação popular entre os adolescentes da região, que realizaram protestos e entraram em confronto com a polícia. Foi quando a coligação passou a receber uma adesão grande de jovens, assim como de imigrantes.

Pasok (Movimento Socialista Pan-Helênico, centro-esquerda) – 41 deputados

Foi o grande derrotado da última eleição legislativa. Criado em 1974, durante o período de redemocratização, tem se alternado no poder com o ND. Nos anos 1990, adotou o ideário da Terceira Via, apostando no livre mercado, privatizações e na restrição do Estado de Bem-Estar Social. Em 2010, durante o governo de Giorgios Papandreou, a crise da dívida pública estourou – o país ficou insolvente e corria o risco de não conseguir pagar seus compromissos mais urgentes.

A subserviência de Papandreou às imposições da Troika para que o país continuasse a receber ajuda financeira serviram para aumentar ainda mais o descrédito no partido, que precisou aliar-se à histórica rival ND e aprovar as medidas de austeridade, rejeitadas pela maioria da população. Muitos de seus próprios deputados começaram a votar contra o partido. Alguns foram expulsos, outros migraram para outras legendas.

Papandreou e o Pasok ficaram com a culpa por terem iniciado a crise (embora o descontrole da dívida tenha começado em governos anteriores) e por terem traído os princípios de sua fundação: “independência nacional, soberania popular, emancipação social e processo democrático”. Na eleição legislativa de maio deste ano, pagou um duro preço nas urnas, ficando em terceiro lugar (pior posição desde 1974, quando ficou atrás do ND e de um partido de centro) e cedendo seu protagonismo à esquerda para a Syriza.

Anel (Gregos Independentes, centro-direita) – 33 deputados

Fundado em fevereiro deste ano, o Anel é uma dissidência do Nova Democracia, e também não aceita as medidas de austeridade impostas ao país. Seu presidente, Panos Kammenos, foi expulso da ND após se posicionar contra um voto de confiança ao governo de coalizão de Lucas Papademos.

Outros nove deputados seguiram o mesmo rumo e decidiram fundar a nova legenda. Defendem uma reconstrução do país, responsabilizando diretamente Pasok e ND pela crise. Também exigem que a Alemanha repare o país pelos danos causados na II Guerra.

KKE (Partido Comunista da Grécia, esquerda) – 26 deputados

É o mais antigo e tradicional partido em atividade no país, sendo fundado em 17 de novembro de 1918 como Partido Socialista e Trabalhista da Grécia. Foi perseguido e colocado em ilegalidade por diversas ocasiões no século passado, quando o país passou por períodos autoritários. Em sua versão atual, após a redemocratização, enfrentou dissidências internas e já chegou a participar de diversas alianças.

O KKE se coloca em oposição às medidas de austeridade, mas também não quis formar um governo de coalizão com a Syriza, quando esta ficou encarregada de formar um governo. Ironicamente, foi um dos formadores da coligação Synaspismós – principal ala da atual Syriza.

Em 1991, com a dissolução da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), eles se separaram. Para a próxima eleição, muitos eleitores do KKE cogitam mudar o voto para a Syriza, e o partido corre o risco de não obter representação.

Chrysi Avgi (Aurora Dourada, neonazista) – 21 deputados

O partido neonazista está, desde sua fundação, em 1993, sob controle do matemático Nikolaos Michaloliakos. Apesar dos símbolos e referências, o partido não se assume oficialmente nazista por “não ser alemão”.

Afirma se identificar com o autoritarismo conservador do ex-ditador Ioannis Metaxas (1936-1941). A legenda se coloca contra a União Europeia, os imigrantes e os homossexuais.

Sempre teve desempenhos discretos até a última eleição. Muitos de seus votos foram provenientes do partido de extrema-direita Laos (Concentração Popular Ortodoxa), pois muitos de seus antigos eleitores ficaram inconformados por sua adesão ao governo Papademos. Há suspeitas de que alguns de seus integrantes do partido estejam infiltrados na polícia e incitem a violência durante manifestações.

Dimar (Esquerda Democrática, centro-esquerda) – 19 deputados

Nasceu de uma dissidência da Synaspismós em 2010. Intitula-se social-democrata e é a favor da permanência do país na UE. Em suas fileiras, também estão muitos militantes dissidentes do Pasok. Desempenhou um papel de destaque durante as negociações para a formação do novo governo. Seu líder, Fotis Kuvelis, teve um bom entendimento com a Syriza, e chegou a fechar um acordo com Alexis Tsipras. Os dois juntos, porém, não foram suficientes.

Na vez de o Pasok formar o governo, as negociações com o Dimar tiveram um bom começo, já que Evangelos Venizelos, líder social-democrata, prometeu a Kuvelis um desengajamento progressivo das políticas de austeridade. Percebendo que cairia em uma armadilha, rejeitou formar uma coalizão só com o Pasok e o ND pois, nesse caso, seriam minoritários na base, e de alguma maneira engoliriam a ingerência da Troika.