Brasil de Fato

Uma Visão Popular do Brasil e do Mundo

O uniforme cinza-listrado

Sei que era o que vestia aqueles pequeninos de intensa melanina que eram manipulados pelo gigante palhaço Emecê








Neuza Maria C. dos Santos

Era cinza-listrado o uniforme que aquelas minúsculas marionetes usavam todos os enfadonhos dias. Será que era um pijama quente como o que a criança usa antes de dormir em seu quarto confortável, no décimo andar de um prédio no centro da cidade? Ou era daqueles que os presos usam na penitenciária, das histórias em quadrinhos?

Não sei, mas a uniformidade do cinza-listrado era a própria prisão daquelas almas sobreviventes da escória do cativeiro de outrora. Carregavam nos ombros o peso do pijama listrado que o menino, sem saber o porquê, usou em dias cinzas, num outro lugar. Mas não sei se eram simples marcas perpendiculares ou eram as linhas escritas do jornal com que o mendigo cobria o corpo numa noite fria na antiga rodoviária. Sei que era o que vestia aqueles pequeninos de intensa melanina que eram manipulados pelo gigante palhaço Emecê.

Emecê era um palhaço com cara pintada e tudo. Mas não era daqueles que conseguem extrair risadas até da criança que está triste porque perdeu o brinquedo preferido. Era tão maquiavélico e egoísta que, junto com seus amigos, outros gigantes, usurparam o brilho lunar e os raios áureos do sol. Era enorme e possuía um reino infinito. Sua sobrevivência dependia do ato de controlar a maior quantidade de inocentes.

Ele atraía suas vítimas com promessas de que lhes daria uma poção mágica de crescimento imediato que rapidamente as deixaria do mesmo tamanho que ele e também lhes daria o mesmo poder.

O que aqueles pobres violentados eram incapacitados de compreender é que para vencer deveriam trapacear uns aos outros, e assim, imperceptivelmente, o faziam. Não percebiam também que a comida oferecida era envenenada e gradativamente o palhaço os matava. Era óbvio que o Emecê não comia da mesma comida envenenada. Degustava e deliciava-se com o banquete dos deuses, com os mais raros frutos da Terra. E o palhaço olhava tudo do alto do seu pedestal e dava gargalhadas invisivelmente.

Aqueles seres de fácil manipulação para o palhaço habitavam as margens do Circo dos Horrores o palhaço Emecê, num lugar chamado de Decida Satélite. Mas que infelizmente não recebiam nenhum facho de luz e nunca puderam decidir, pois o palhaço utilizava todos os meios para mantê-los hipnotizados, para que aquele que não aguentasse e morresse em seu circo logo fosse substituído por outros. Em Decida Satélite nunca faltava quem coubesse em um uniforme cinza listrado.

Como se fossem translúcidos, era possível enxergar o interior dos marionetizados e perceber o quanto eram pujantes e resistentes, mas incapacitados de reagir. Isso porque a corda que os controlava era invisível e por isso nunca sabiam se poderiam ou não se desvencilhar dela.

Acostumaram-se tanto em ser controlados pelo palhaço que nem sentiam mais as cordas machucarem-lhes o corpo, nem sentiam mais o peso do uniforme cinza-listrado. O pior é que o palhaço Emecê continua crescendo e a todo dia ludibria, aprisiona e marionetiza milhares e milhares de vítimas da Era do Cifrão.

Como cortar as invisíveis cordas controladas pelo gigante Emecê? Como derrubá-lo, junto com seus colegas também gigantes manipuladores? Como desfazer o feitiço da hipnose? Como libertar Decida Satélite? São perguntas que ultrapassam o limite da consciência humana.

Neuza Maria C. dos Santos é educanda do curso Licenciatura em Educação do Campo (LEdoC) e integrante do Terra em Cena - Projeto de Extensão da UnB.