Brasil de Fato

Uma Visão Popular do Brasil e do Mundo

A verdade não é Fla-Flu

Quem arrombou o Estado para torturar e matar só merece estar nas celas sombrias do esquecimento, pagando dobrado por cada lágrima rolada em nosso penar...








Luiz Ricardo Leitão

A escritora Heloísa Seixas compôs um contundente texto sobre a saga de Inês Etienne Romeu, militante da Var-Palmares e companheira de Dilma Rousseff na resistência à ditadura militar durante os malsinados anos de chumbo das décadas de 1960 e 1970. Ela se inspirou na visita que fez à TerrorHáza (a Casa do Terror), em Budapeste, museu sediado no prédio que abrigou as polícias políticas da Hungria, seja sob o regime nazista, seja no período do socialismo real no país. Não bastasse a imagem sombria do imponente prédio cinza que se ergue na Rua Andrássy, em plena capital húngara, a visitante sentiu-se especialmente incomodada ao percorrer o subsolo do edifício (“os porões da tortura”, diz ela), com suas paredes que transpiram opressão e umidade, além das celas encardidas, em “cubículos forrados com sacos de algodão”, para que o som fosse abafado. Lá dentro, a escritora termina por lembrar-se da casa de tortura de Petrópolis, onde o fatídico delegado Sérgio Fleury manteve diversos prisioneiros sequestrados pelo aparato de repressão, dos quais a única sobrevivente foi sua ex-cunhada Inês.

Em 1971, após ser presa em São Paulo, a jovem militante ficou desaparecida por três meses. Julgando-a morta, a família já procurava por seu corpo, mas alguma coisa falhou nos porões da ditadura e ela reapareceu, literalmente dizimada pela repressão, com seu peso reduzido a pouco mais de 30 kg. Só então veio a ser oficialmente presa, julgada (?) e condenada à prisão perpétua. Cumpria a pena no Instituto Penal Talavera Bruce, em Bangu (Rio), até que em agosto de 1979, o ano da “anistia”, veio a ser liberada. Com isso, pôde reunir as provas do martírio de tantos camaradas e revelar a todos os horrores daquela Casa, além de denunciar o médico que monitorava sua “saúde” para que os interrogatórios continuassem. Desconcertadas, as Forças Armadas emitiram uma nota acusando-a de “revanchismo” – quem era essa mulher que ousava pôr a nu os “guardiões da ordem”?

O relato inquietante de Heloísa nos adverte que a instauração da Comissão da Verdade no país jamais poderá ser vista como um Fla-Flu da nossa truncada história republicana. Somente as forças mais reacionárias de Bruzundanga e alguns militares saudosos do regime podem prestar-se à tarefa, ainda eficaz, de confundir nossos analfabetos políticos acerca do significado político e social da ação genocida do Estado durante a ditadura. A Verdade que se está buscando é apenas uma: como foi possível que o poder oficial, mantido à custa de recursos públicos, viesse a montar tamanho aparato de violação dos direitos civis e da vida democrática? Como foi possível que, sob a égide da maldita doutrina da “segurança nacional”, tantos crimes imprescritíveis tenham ficado impunes por mais de quatro décadas? A resposta, convém dizer, está bem à nossa frente – e, também, logo aqui ao nosso lado. Assim como a “Independência” se impôs sem nenhum tiro, com o brado de um príncipe sobre seu cavalo em meio às desavenças da Corte portuguesa, e a República foi proclamada após meia dúzia de disparos no centro do Rio, a queda da ditadura se inscreve na triste fórmula da modernização sem ruptura cultivada pelas elites de Bruzundanga, mestres na arte de “mudar para não mudar”.

Após a frustração das “Diretas Já!” e o desfecho melancólico da luta pela redemocratização do país, em que a eleição e morte de Tancredo Neves culminaram na grotesca condução de José Sarney à presidência (!), o movimento social investiria suas últimas forças na campanha de Lula em 1989, cujo capítulo final ainda está bem vivo na memória popular. Enquanto isso, os hermanos argentinos viviam anos de lutas intensas, entremeadas pelo traumático episódio da Guerra das Malvinas, que os fez inundar as ruas para derrubar o regime e os preparou para novas etapas de firme intervenção na vida pública nacional, sem o menor medo de ser feliz.

Agora, quando se trata tão somente de virar com um mínimo de dignidade mais essa página da frustrante História nacional, a mesma ladainha é destilada nas colunas da grande mídia. Gente que sugou nas tetas de um golpe ditado pela CIA e foi cúmplice da entrega de nossas riquezas aos monopólios e ao capital transnacional passou a clamar por imparcialidade, fazendo infográficos com as vítimas de “cada lado” do confronto (?). Vade retro, cambada! Quem arrombou o Estado para torturar e matar só merece estar nas celas sombrias do esquecimento, pagando dobrado por cada lágrima rolada em nosso penar…

Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, é autor de Noel Rosa – Poeta da Vila, Cronista do Brasil e de Lima Barreto – o rebelde imprescindível.