Lutas regionais

Encontro em Xapuri: o dia em que Che Guevara e Chico Mendes estiveram juntos em plena ditadura

Líder sindical ajudou Che Guevara com a sabedoria seringueira sobre os varadouros

Che Guevara e Chico Mendes
Che Guevara e Chico Mendes | Crédito: Autoria desconhecida; Acervo Comitê Chico Mendes

O ano era 1966, dois anos após o golpe militar no Brasil e, segundo documentações, essa era a quarta vez que Ernesto Che Guevara, revolucionário nascido na Argentina, teria passado pelo país.

Segundo relatos, Che passou secretamente pelo Brasil, no mês de novembro daquele ano, a caminho da Bolívia, utilizando disfarces e documentação falsa. Seu objetivo era apoiar a revolução camponesa liderada pelo Exército de Libertação Nacional (ELN) em curso no país.

As informações coincidem com o que foi narrado por Francisco Alves Mendes Filho, conhecido como o líder sindical e seringueiro Chico Mendes, em entrevista a Pedro Vicente Costa Sobrinho.

Segundo Chico Mendes, quando tinha 22 anos, um homem o abordou num entroncamento a 12 quilômetros de Xapuri (AC), querendo conhecer a selva amazônica e, principalmente, os seringais e a selva boliviana. 

Victor Manoel, repórter responsável pelo artigo publicado pelo Comitê Chico Mendes que revive essa história, comenta os detalhes desse inusitado encontro, em que Chico não reconheceu que falava com o líder da revolução cubana.

“O encontro de Chico e Che foi curto e o que chama a atenção é que Che queria que o Chico o ajudasse a desbravar os varadouros, porque os varadouros eram caminhos mais difíceis de serem localizados. Chico compartilhou essa sabedoria. Inclusive, Che ofereceu joias para Chico para poder ajudá-lo, mas Chico acabou recusando.”

A filha do sindicalista acreano e presidenta do Comitê Chico Mendes, Angela Mendes, que motivou o resgate dessa história, relatou, em entrevista ao Programa Conversa Bem Viver, que não ouviu essa história do próprio pai e nem há registros oficiais que deem conta de certificar o acontecido, mas, diante dos cruzamentos de informações sobre a passagem de Che pela região e a descrição de Chico, o encontro é dado como certo.

Angela ainda comenta sobre outra figura significativa na construção do mundo de Chico Mendes, que o encontrou alguns anos antes desse encontro com Che: o militante comunista Euclides Fernandes Távora. Segundo ela, é provável que Euclides e Che tenham estado nas mobilizações da mesma guerrilha na Bolívia. 

A presidenta do Comitê Chico Mendes explica em que momento seu pai pode ter entendido que havia conhecido Che Guevara pessoalmente.

“Meu pai já tinha desvelado esse mundo da justiça social, da luta de classes, da organização dos trabalhadores através desse aprendizado com Euclides. Então, eu fico imaginando que, logo depois, ele foi nessa delegacia e olhou a foto do Che Guevara como procurado; com certeza ele descobriu com quem ele estava falando. Deve ter passado muitos dias refletindo sobre o encontro.”

Che Guevara foi assassinado por forças militares da Bolívia menos de um ano depois, e possivelmente não teve a oportunidade de compreender a importância daquele jovem que o ajudou na empreitada rumo à guerrilha boliviana. 

Victor Manoel reflete que essas duas figuras compartilharam, mesmo que não diretamente, um mesmo sentimento.

“A luta por território é uma matriz das lutas que a gente viu no último século na América Latina. Essas pessoas foram grandes sonhadores, que viveram e foram simultâneos na linha do tempo, compartilhando essa vontade de reafirmação do território enquanto identidade, e os dois infelizmente encontraram um fim muito trágico, mas essa luta continua”, ressalta o repórter.

O texto que traz detalhes do relato de Chico Mendes está no site do Comitê.

Conversa Bem Viver

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Editado por: Rafaella Coury

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