Karla Monteiro, historiadora especialista na primeira metade do século 20, é a biógrafa responsável por resgatar a história e o legado de Leonel Brizola. No livro “Brizola: Vol. 1: Lobisomem contra o império” (Cia. das Letras), ela retrata desde o nascimento até a volta do político do exílio, em 1979.
Ao falar da ascendência do fundador mais famoso do Partido Democrático Trabalhista (PDT), Monteiro lembra, em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato, que sua família não tem tradição política.
“Brizola vem de uma origem extremamente humilde, é o primeiro da família a chegar à universidade e se depara com todas as revoluções políticas que estavam acontecendo naquele momento. Os comunistas eram muito fortes naquela época dentro das universidades e o Brizola escolhe uma terceira via, digamos assim. Escolhe o getulismo e entra no trabalhismo pela via sindical.”
A luta anti-imperialista integra parte importante da trajetória do Brizola, de acordo com a autora. A aproximação do gaúcho com a pauta de união com os países vizinhos aconteceu principalmente no período anterior ao golpe civil-militar de 1964 no Brasil.
“Brizola acreditava que o nosso subdesenvolvimento, todas as mazelas que a gente vive, ocorriam porque o dinheiro que a gente produzia era escoado para os Estados Unidos. Brizola não era um político isolado no Rio Grande do Sul. Estava conversando sobre o que estava acontecendo na América Latina. Influenciava o pessoal no Uruguai, que depois vai formar os Tupamaros, influenciava na Argentina, influenciava no Chile.”
A especialista pondera que, dada a importância de Brizola para a história do país e da América Latina, ele deveria ter sido presidente. “Brizola é o presidente que a gente não teve. Ele continua pairando aqui. Brizola tinha que ter sido presidente de 1989; teria sido uma grande forma de fechar a ditadura”, analisa.
Brizola radical
A partir de movimentos que surgem na América Latina, o Brizola se encaminha para o nacionalismo revolucionário. “Não é que ele abandone o reformismo; de certa forma, ele abraça uma linha mais revolucionária a partir de 1960”, completa a biógrafa.
Monteiro comenta ainda que Brizola e seus aliados políticos, considerados mais à esquerda do que João Goulart, presidente em exercício quando ocorreu o golpe civil-militar no Brasil, foram os verdadeiros motivos para a intervenção imperialista e o rompimento da democracia brasileira. Para ela, Jango era mais conciliador. “O golpe militar é dado muito mais em nome do Brizola do que do Jango. A briga dos Estados Unidos não era com o Jango, era com Brizola.”
Não era só Brizola que se colocava nesse processo de enfrentamento. “Era um momento de radicalização geral, né? Não só no Brasil, era um momento de radicalização no mundo, era um momento de radicalização da Guerra Fria. Então o Brizola estava dentro de um contexto de radicalização”.
Conversa Bem Viver

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