O neoliberalismo nos impõe um sistema de superprodutividade: somos levados a pensar a todo tempo que precisamos ser úteis. Até nossas ações relacionadas aos afetos e vínculos familiares passam a operar nesta lógica.
Essa é uma das reflexões do psicanalista e membro do grupo de investigação e religião, laço social e psicanálise do laboratório da Universidade de São Paulo (USP), Lucas Lujan, no seu mais recente livro “Amar para não ser em vão” (Ed. Paidós). Na obra, Lujan parte da premissa do narcisismo para pensar o amor nos tempos atuais.
Em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, o autor explica que a análise acabou chegando ao neoliberalismo, já que ele incide sobre como vemos o mundo, miramos os outros e organizamos as nossas vidas.
“Ele nasce como uma proposta econômica, mas extrapola a economia e se torna um paradigma moralizante. As nossas relações vão sendo atravessadas por isso. Porque aí a gente fica meio confuso se o namoro é um trabalho, se o casamento é um trabalho, se a criação dos filhos é um trabalho. No capitalismo, tudo isso já pode ser interpretado. O neoliberalismo suspende a dúvida e leva o indivíduo ao máximo de exploração possível para que se obtenha o máximo de lucro possível”, destaca o autor.
Nas relações pessoais, o neoliberalismo reflete-se em um grande individualismo. “A gente entrou numa era da superindividualização, a privatização dos afetos. Como se a gente não vivesse em grupo, em coletivos. E aí nasce a ideia de um indivíduo, alguma coisa como um empreendedor de si mesmo. Aqueles discursos tipo: ‘seja a melhor versão de si mesmo'”, explica Lujan.
“Do ponto de vista psicanalítico, o que a gente chamaria de completo, de alguém que tem que aparecer sempre em perfeição, em performance. Não há neste sujeito espaço para o que ele não sabe, o que ele não pode, para alguma coisa que marque uma falta. Isso vai aparecendo subjetivamente: ‘se eu não sei, é porque eu sou um fracasso'”, segue.
Para fugirmos das armadilhas da autossuficiência neoliberal, temos que aceitar ausências e limites, além de entender que não existimos para completar o outro.
“Nesse sentido, o amor pode ser sim uma tecnologia de transformação social. Quando eu penso no amor, neste livro, eu não penso apenas romanticamente. Eu estou falando sobre uma certa tecnologia de incompletude, de falta e de limite, que nos permite viver coletivamente, que nos permite criar vínculos, que nos permite enxergar o outro como ele é. Uma alteridade, não uma repetição de mim mesmo, não uma repetição narcísica de quem eu sou”, conclui.
Conversa Bem Viver

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