100 anos de Fidel

Fidel Castro foi discípulo do método Paulo Freire sem saber, analisa escritora e amiga Maria Valéria Rezende

Educadora incumbida de levar método paulo freiriano à Ilha lembra sua relação com o comandante da Revolução de 1959

Fotografia em preto e branco de Maria Valéria Rezende com Fidel Castro
Maria Valéria Rezende com Fidel Castro | Crédito: Arquivo pessoal

Há 100 anos, nascia Fidel Castro, líder da Revolução Cubana, ocorrida em 1959. Defensor dos ideais de liberdade e justiça social até o final dos seus dias, Castro é considerado um dos maiores revolucionários da história.

Ao Conversa Bem Viver, a escritora, educadora e amiga de Fidel, Maria Valéria Rezende, conta que teve o primeiro contato com o cubano por meio do intelectual e teólogo Frei Betto. Na época, ela passava períodos longos em Cuba e na Nicarágua, onde também acontecia um movimento revolucionário.

“O pessoal da Nicarágua já queria que fosse com a metodologia freiriana e não com uma metodologia escolástica, como tinha sido feita em Cuba, que tinha tido apoio da União Soviética”, recorda a educadora.

Embora a ilha já tivesse erradicado o analfabetismo, o líder cubano desejava que as escolas de formação de movimentos de massa e do partido se apropriassem da filosofia freiriana. Maria Valéria foi incumbida, por indicação de Frei Betto, de levar para Cuba o método de Paulo Freire, entre 1985 e 2001. “Eu passava quatro, cinco meses por ano em Cuba.” Durante esse período, seu papel foi fundamental para a educação popular no país, pois, como ela explica, teve “que ajudar a repensar a metodologia em todas essas escolas cubanas”.

Sobre a personalidade de Fidel, a entrevistada destaca uma faceta de extrema curiosidade e escuta, contrariando a imagem de comandante implacável. Ela recorda que os encontros frequentemente ocorriam em horários inusitados, mencionando que, em sua primeira conversa, ele “chegou às duas horas da madrugada”. Rezende descreve o desenvolvimento de uma “velha amizade” baseada em diálogos constantes, nos quais ele se mostrava um interlocutor atento. “Ele jamais pregava, dava ordens. Ele estava sempre ouvindo. Ele ouvia muito.” Todas essas características, Rezende associa com o método desenvolvido por Paulo Freire.

Para ela, a disposição para a pergunta o tornava um mestre e discípulo natural da pedagogia do oprimido. “Ele chegava para quem estava trabalhando e fazia perguntas. É por isso que ele se encontrou com a pedagogia freiriana, na qual justamente a principal ferramenta de trabalho é a pergunta”, afirma.

Ao refletir sobre o centenário de Fidel e o legado da Revolução, Maria Valéria enfatiza a autenticidade do líder como o alicerce para a resistência do povo cubano. Ela expressa profunda gratidão pela trajetória que viveu, afirmando que “Fidel era um homem muito autêntico” em seu desejo de buscar o bem para seu povo. Para ilustrar a durabilidade das conquistas sociais e educativas na ilha, mesmo diante do histórico bloqueio dos Estados Unidos e das diversas dificuldades atuais, ela utiliza uma metáfora sobre o plantio ideológico: “Quando a semente é autêntica, a planta resiste, resiste, resiste.”

Confira a entrevista completa:

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Editado por: Gia Matheus Almeida

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