referência

Desmonte provocado pela ditadura foi fundamental para Moacir Santos deixar o Brasil, diz biógrafa

Extinção de grupos musicais nas rádios públicas após o golpe de 1964 impulsionou a ida do gênio pernambucano aos EUA

© Fábio Seixo/ Divulgação
Moacir Santos | Crédito: © Fábio Seixo/ Divulgação

O centenário de Moacir Santos, celebrado no último dia 26 de julho, ocorreu em meio a diversas homenagens a um dos maiores maestros e multi-instrumentistas da história da música. Nascido no sertão do Pajeú, em Flores (PE), e reconhecido mundialmente por obras como o álbum “Coisas”, Moacir é descrito como uma revolução na música instrumental e no jazz, que alcançou prestígio tanto no Brasil quanto no exterior. Sua trajetória foi marcada por uma determinação singular, que o levou de bandas filarmônicas no Nordeste à consagração na Rádio Nacional no Rio de Janeiro e, finalmente, aos Estados Unidos.

Segundo seu filho, Moacir Santos Jr., que vive na Califórnia (EUA), as comemorações do centenário foram repletas de mensagens de carinho e respeito vindas do Brasil. Ele relembra com admiração a trajetória do pai, que ficou órfão aos três anos e, apesar das dificuldades, nunca reclamava da vida e priorizou a educação e a música para a família. “Eu tocava música clássica e lia partitura graças ao meu pai. Tenho uma lembrança ainda do Rio de Janeiro: eu tinha uns 3 ou 4 anos, esperava ele chegar e ele dava volta comigo de bicicleta. Eu sempre falava: ‘Meu rei chegou'”, relata.

Sobre o talento do maestro, o filho destaca: “Eu aprecio que você aprecie meu pai, sinceramente. Ele é um grande músico, um grande professor de música também”, afirma. Moacir Jr. também ressalta que a educação recebida dos pais o preparou para viver “acima do racismo” e de outros problemas sociais.

Moacir, imigrante

A flautista Andréa Ernest Dias, doutora em música pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), é também a biógrafa de Moacir Santos. Em “Moacir Santos ou os caminhos de um músico brasileiro”, a autora narra a trajetória do músico e enfatiza a profundidade da contribuição do artista para a identidade musical brasileira. Ela aponta que ele não apenas possuía um dom acentuado, mas também buscou intensamente o conhecimento técnico com mestres da música erudita, como Guerra-Peixe e Claudio Santoro, para consolidar seu estilo orquestral único.

“Na verdade, ele já era um grande músico, com um dom bastante acentuado desde a infância. Então, toda essa preparação dele, essa primeira formação musical dele. E o sertão também, que foi a mesma formação musical de muitos expoentes da música nordestina”, afirma. “Ele se aproveitou também de uma iniciativa de governo que enviou mestres músicos militares ao sertão para poder formar essa juventude. Então ali se formaram grandes nomes do sopro, dentre eles o Moacir Santos”, conta.

Ela explica que a mudança definitiva para os Estados Unidos, na década de 1960, foi impulsionada pela busca de estabilidade profissional após o desmonte das rádios públicas durante o golpe militar no Brasil.

“As estruturas públicas foram todas muito abaladas com o golpe. Culturalmente, a Rádio Nacional não foi extinta, mas os grupos estáveis foram extintos, os músicos ficaram meio à deriva. E todo mundo foi sendo mandado embora. E aí ele ficou desempregado aqui no Rio. Teve um breve momento em São Paulo, trabalhou também como arranjador e maestro”, explica.

Legado

O impacto de Moacir Santos continua sendo celebrado por meio de projetos como o Festival Moacir Santos e o álbum “Ouro Negro”, que envolveu grandes nomes da música brasileira para regravar seus clássicos. Nos Estados Unidos, ele se estabeleceu como um respeitado professor de jazz e colaborou com músicos renomados, consolidando uma carreira internacional sólida e de muito prestígio. “Ele seguiu os grandes mestres. Ele fez um novo círculo de amigos musicais e profissionais [nos EUA] e amealhou um respeito muito grande entre essas pessoas, que já eram pessoas colocadas no mercado”, relata a biógrafa.

Ao refletir sobre o legado do maestro, Dias afirma: “Ele representa muito para mim, representa muito para todos nós”.

A sintonia da Rádio Brasil de Fato é 98,9 FM na Grande São Paulo.

Assim como os demais programas da Rádio Brasil de Fato, você pode ter acesso a esse conteúdo com antecedência para reproduzir gratuitamente na sua rádio. Acesse este formulário e faça sua inscrição.

São dezenas de rádios que fazem parte desta corrente!

Editado por: Gia Matheus Almeida

|

Newsletter