Em cartaz com a peça “Dois de Nós”, no Rio de Janeiro, o ator, diretor e escritor Antônio Fagundes passa em revista sua trajetória, fala de teatro, cinema, transformações sociais e até como a arte pode influenciar o debate público.
Ao Conversa Bem Viver, Fagundes se define como “um realista esperançoso”, citando Ariano Suassuna, ao avaliar o atual cenário da sociedade polarizada, prestes a participar de eleições em outubro. Ele reforça que o respeito ao contraditório é o único caminho viável: “Divergir não faz de você inimigo. Eu acho que as diferenças têm que ser discutidas com tranquilidade. Talvez isso seja um começo de uma evolução nossa”, avalia.
Quase três décadas após a estreia da icônica novela “O Rei do Gado”, em 1996, que levou o debate sobre a reforma agrária e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) para o horário nobre da TV Globo, o ator propõe uma reflexão sobre o impacto social da obra passados 30 anos.
Nem todo mundo aprovou a trama escrita pelo autor Benedito Ruy Barbosa na época. Mesmo assim, Fagundes destaca a força do diálogo que a dramaturgia alcançou com o sucesso da novela. “O grande mérito do Benedito no ‘Rei do Gado’ foi trazer a discussão da reforma agrária para a novela das nove da TV Globo, de uma forma que as pessoas parassem para ouvir”, afirma. Para Fagundes, as manifestações mais radicais “se perderam no mar daqueles que entenderam o que o Benedito queria falar”.
Hoje, diante de um cenário em que o MST ocupa um espaço significativamente diferente na opinião pública — com maior aceitação social, candidatos disputando eleições e os bonés do movimento circulando pacificamente pelas ruas –. Antônio Fagundes acredita em uma transformação estrutural. Ao ser questionado se a novela funcionou como uma semente para a consolidação pacífica do movimento, ele pondera sobre o desenvolvimento democrático do país. “Não sei se a novela teve essa influência ou se foi o próprio amadurecimento político nosso de entender que algumas coisas têm que ser discutidas calmamente, que têm que ser colocadas em cima da mesa com tranquilidade”, defende.
Resistência na arte
Ao falar da peça atual ao lado da amiga de longa data Christiane Torloni, Antônio Fagundes declara seu amor ao teatro, a partir do qual “você leva conhecimento” para todas as outras linguagens da arte. “Se eu pudesse ou se eu tivesse que fazer só teatro, eu ia ficar muito feliz”, resume.
Em tempos de inteligência artificial e redes sociais, Fagundes comemora o sucesso de “Dois de Nós”, com sessões lotadas e fala da disciplina que o teatro exige. “Você tem que ter uma disciplina interna absoluta para manter a integridade daquele espetáculo, para manter o que o autor quis dizer, sem mexer em nenhuma palavra daquele texto, aprofundando a sua relação com aqueles personagens e a sua relação com aquela plateia à sua frente. Então, o teatro é realmente uma arte”, avalia.
O ator brinca que, diante da contemporaneidade, muitas vezes dá vontade de colocar uma placa na entrada do teatro com os dizeres: “100% humano”. Para ele, as pessoas ainda vão a espetáculos justamente por esse elemento humano e, por isso, apesar das transformações, o teatro nunca vai acabar. “‘[No teatro] você vai ver ao vivo, na sua frente, você vai ver atores com quem você pode trocar energias. Apesar da plateia estar em silêncio, ela está participando daquele momento. Essa possibilidade é infinita e imortal”, resume.

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