registro inédito

‘Foi o primeiro e único encontro de exilados brasileiros no mundo’, diz diretora de ‘Anistia 79’

Anitta Leandro avalia que o exílio nunca foi uma opção: 'Foi exatamente a falta de escolha. Era isso ou a morte'

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Imagem do documentário ‘Anistia 79’ | Crédito: Reprodução

O documentário “Anistia 79″, dirigido pela cineasta Anitta Leandro, resgata um capítulo crucial e pouco conhecido da história política brasileira: a Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, realizada em junho de 1979 no Senado Italiano, em Roma, na Itália.

Vencedor dos prêmios de melhor filme na mostra Olhos Livres e do júri popular na 29ª edição do Festival de Tiradentes, o longa baseia-se em quase duas horas de filmagens em película de 16mm registradas pelo exilado Hamilton Lopes dos Santos e recuperadas em um porão em Paris, na França.

A obra promove o emocionante reencontro dos sobreviventes com as imagens de sua própria juventude e de seus companheiros de militância histórica, como Apolônio de Carvalho, Gregório Bezerra e Francisco Julião. “Foi filmado como uma cobertura do evento, mas é uma cobertura riquíssima, porque não só ele traz personagens importantíssimos, mas também porque são imagens realmente únicas da diáspora brasileira. Foi o primeiro e único grande encontro dos exilados brasileiros no mundo”, afirma a diretora, que é também pesquisadora e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Para Leandro, a digitalização inédita desse material em alta definição trouxe um impacto profundo. “Foi como se o passado se revelasse ali diante dos nossos olhos. É um verdadeiro encontro com o passado”, ressalta ao Conversa Bem Viver.

O filme cumpre o papel fundamental de desconstruir o mito de que a partida para o exterior teria sido uma opção voluntária de fuga. Como define categoricamente Anitta Leandro, “o exílio não foi uma escolha; foi exatamente a falta de escolha”. A cineasta ressalta que, para muitos que enfrentavam ameaças iminentes de prisão, tortura e desaparecimento sob o regime de exceção militar, a saída forçada do país representou a única alternativa real para salvar a própria vida. “Era isso ou a morte.”

Mais do que um resgate documental, “Anistia 79” funciona como uma provocação essencial diante da constante tentativa de revisionismo histórico atual. Leandro recupera as reflexões do jurista francês Louis Joannet, que presidiu o encontro em Roma, para questionar os termos da transição democrática brasileira, marcada pela autoanistia que blindou torturadores sob a tese dos “crimes conexos”.

Ela reforça que a anistia acabou sendo aprovada porque quem mandava no país naquele momento eram justamente os mais interessados em que isso acontecesse. “Anistia não é um perdão dado ao cidadão, mas o perdão que o Estado pede ao cidadão. O Estado de exceção é que tem que pedir perdão ao cidadão pelos crimes que ele cometeu”, pontua a diretora, alertando que a falta de uma efetiva justiça de transição no Brasil consolidou uma cultura de impunidade que ainda se reflete na violência institucional do presente. “A gente vê isso no pensamento, na formação das polícias militares. Só é comparável o que acontece com as vítimas da polícia no Brasil com países em guerra. É uma coisa escandalosa”, resume.

O documentário “Anistia 79” estreou na quinta-feira (20) nos principais cinemas do país.

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Editado por: Rafaella Coury

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