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Endividamento e alta taxa de juros fazem conta de consumo de alimentos não fechar, avalia ex-ministro

Ex-diretor da FAO analisa o paradoxo econômico da eleição: bons indicadores do governo Lula convivem com avaliação fraca

Alimentos da agricultura familiar comercializados no Armazém do Campo, em São Paulo
Alimentos da agricultura familiar comercializados no Armazém do Campo, em São Paulo | Crédito: Geisa Marques/Brasil de Fato

A economia pautou bastante o debate público neste ano eleitoral, especialmente porque é um tema que afeta o dia a dia do brasileiro. Candidato à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) encontrou um certo paradoxo: seu terceiro governo tem apresentado números econômicos muito positivos, como a saída do Brasil do Mapa da Fome, ao mesmo tempo em que um alto índice de endividamento das famílias, de aproximadamente 80%, gera uma percepção negativa na população sobre a economia. Esse cenário acaba por impactar a relação entre o poder de compra e os preços dos alimentos.

Ao Conversa Bem Viver, o agrônomo José Graziano da Silva, ex-ministro Extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome e ex-diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), explica que o poder de compra e os preços dos alimentos em moeda nacional melhoraram, impulsionados pela valorização do salário mínimo, mas o custo de vida vem sendo fortemente afetado pelo alto endividamento e pelas taxas de juros elevadas que corroem a renda das famílias. “Nós estamos pagando 1% ao dia, quase, de taxa de juros no cartão de crédito. Isso é coisa de agiota. Isso é coisa de bandido”, critica.

Além disso, ele aponta que a flutuação dos preços dos alimentos no país foi impulsionada principalmente por instabilidades climáticas internas, e não por choques do mercado internacional. “Não há dúvida de que nós enfrentamos esse ano, particularmente, e o ano passado, uma elevação dos preços mundiais de alimentos, que tem muito a ver com as guerras, a instabilidade no mercado mundial… Mas isso não afetou muito o Brasil, não. O que afetou mais o Brasil foram as instabilidades climáticas. Então, nós tivemos preços que subiram muito e baixaram muito, dependendo da época de safra, principalmente preço de produtos estrangeiros, que são os mais afetados pela instabilidade climática. Então, na média, o Brasil teve um desempenho melhor do que o resto do mundo”, pondera.

Ao abordar a saída do Brasil do Mapa da Fome, Graziano explica que o país conseguiu reduzir expressivamente a subalimentação para menos de 1% da população. No entanto, ele alerta que o desafio central da segurança alimentar mudou da quantidade de calorias para a qualidade nutricional da dieta, gravemente comprometida pela substituição de alimentos frescos por produtos ultraprocessados. “O nosso problema agora passou de quantitativo, quanto comemos no mínimo para um índice de qualidade, o que nós comemos”, afirma. Como reflexo dessa piora na qualidade da alimentação, ele chama a atenção para a crescente prevalência do sobrepeso e da obesidade, projetando que dois terços da população adulta brasileira poderão estar com excesso de peso até 2030.

Para orientar o debate público e garantir avanços sustentáveis na nutrição do país, o Instituto Fome Zero formulou seis diretrizes estratégicas. Entre as propostas, destacam-se a necessidade de subsidiar produtos frescos no âmbito da reforma tributária, o fortalecimento da agricultura familiar, a implantação de uma proteção social antecipatória diante de emergências climáticas e o incentivo ao engajamento comunitário. “Essa deficiência de frutas, verduras e legumes precisa de mais do que simples isenção de tributo. Precisa de subsídio. O mundo inteiro subsidia produtos frescos”, destaca. “Não há uma política de segurança alimentar e nutricional se não tiver participação social”, resume.

Conversa Bem Viver

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Editado por: Gia Matheus Almeida

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