história se repete

Cobertura da imprensa é pior do que da eleição de 1989, avalia Xico Sá

Xico Sá comenta novo livro e lamenta que imprensa atual falhe em revelar quem realmente é Flávio Bolsonaro

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Jornalista e escritor Xico Sá
Jornalista e escritor Xico Sá | Crédito: Renato Parada/Divulgação/Editora Todavia

Em junho de 1996, o ex-tesoureiro da campanha de Fernando Collor, PC Farias, foi assassinado ao lado da namorada Suzana Marcolino. Após 30 anos, uma figura que está no centro do maior escândalo político e financeiro atual, o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, guarda diversas semelhanças com PC Farias.

Quem conta essa história é o jornalista e escritor Xico Sá. Em seu novo livro, “O tesoureiro” (Editora Todavia), ele destrincha todo o esquema de corrupção do qual o homem de confiança do ex-presidente foi o pivô do escândalo que culminaria no impeachment de Collor.

Ao Conversa Bem Viver, o jornalista conta que, apesar do hiato de tempo, é “uma aventura jornalística que dialoga com o que estamos vivendo agora”. E afirma que o caminho do dinheiro, nos dois casos, guarda semelhanças. “A gente tem novos PCs Farias, talvez vestidos no modelito Faria Lima e não mais no modelito de capo alagoano, mas o esquema parece bem o mesmo”, ressalta. “Tem uma diferença relevante: o PC Farias consegue fugir. Já o Vorcaro é pego na saída do aeroporto de Guarulhos, mas também é um personagem que tenta fugir”, brinca.

Xico Sá explica que o escândalo do Banco Master, que emergiu agora, tem origem no pagamento de precatórios e decisões de tribunais de justiça da época de Collor. Essa conexão foi descoberta após a conclusão do livro.

“Mostra como os escândalos no Brasil estão muito ligados. É a grana dos tais precatórios. Precatórios são papéis do Estado que o cara recebe mediante uma promessa de pagamento futuro, e os precatórios do Banco Master são simplesmente os precatórios saídos do Instituto do Açúcar e do Álcool, o famoso IAA, da gestão Collor. O Collor fecha o IAA, o PC Farias negocia esses precatórios. Esses precatórios, anos depois, acabam nas mãos de quem? Daniel Vorcaro e o Banco Master”, resume.

Segundo Sá, o envolvimento do Judiciário se deu porque os papéis, por si só, não valem nada. “Esses papéis, para serem pagos, precisam ser julgados de forma favorável por essas instâncias”, continua. “Daí essa sede louca de Vorcaro comprar a turma da toga, porque se ele compra essa turma, ele transforma em dinheiro vivo esses precatórios que vêm lá dos usineiros de 1990, dos mesmos usineiros que negociaram com o Collor e que negociaram com o PC Farias”, afirma.

Na visão do jornalista, a continuidade da história mostra como a corrupção no Brasil se sustenta através dos tempos, porque o mercado financeiro e especulativo preserva esse modus operandi. “O PC, ele mesmo dizia, e está no meu livro: ‘Eu sou um capitalista nato. Eu sei fazer a relação entre o Estado e o cofre privado’. Ele sabia. A grande arte dele era essa. A grande arte do Vorcaro é a mesma”, compara.

Ainda nas comparações entre períodos históricos, Xico Sá faz críticas à cobertura política da imprensa comercial em tempos de campanha eleitoral. “Estou vendo como uma cobertura pior do que essa primeira campanha eleitoral em que eu participo, em que eu descubro ali o personagem PC Farias, de 1989. A imprensa brasileira chega hoje, a dois dias da eleição, sem ter revelado quem é Flávio Bolsonaro. Isso é uma irresponsabilidade tremenda com o país”, afirma.

O jornalista destaca o papel de resistência da mídia alternativa e pondera que, na imprensa comercial, há bons profissionais na reportagem, mas há interesses dos donos desses meios de comunicação. “Estão encobrindo quem é Flávio Bolsonaro de uma maneira perigosíssima. Eu não me surpreenderia se, daqui a alguns anos, a gente descobrisse que houve um grande investimento financeiro nos grandes meios de comunicação. Porque nada justifica”, pontua.

Sobre a campanha de Lula e a posição pouco radical, Xico Sá avalia que essa crítica precisa ser um pouco mais ampla. “Se tivesse feito um governo mais à esquerda, hoje estaria passando menos sufoco na campanha eleitoral, porque teria uma ligação mais direta com as camadas populares”, conclui.

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Editado por: Gia Matheus Almeida

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