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Filme ‘Virtuosas’, com Bruna Linzmayer, satiriza movimento ultraconservador de mulheres em SC

Longa expõe contradições no fenômeno importado dos Estados Unidos das chamadas 'esposas troféu'

Bruna Lieznmayer encarna a vilã em "Virtuosas".
Bruna Lieznmayer encarna a vilã em “Virtuosas”. | Crédito: Divulgação

Um fenômeno importado dos Estados Unidos ganha terreno no Brasil conforme o ultraconservadorismo avança em capilaridade na política: as tradwives, ou “esposas troféu”, são a inspiração do longa brasileiro “Virtuosas”, da diretora Cíntia Domit Bittar, com Bruna Linzmeyer como uma das protagonistas.

Misturando comédia, terror e sarcasmo, o filme, ambientado em Santa Catarina, aborda a ascensão do movimento das “mulheres virtuosas”, expressão ancorada em provérbios bíblicos que incentiva mulheres a abandonarem a vida profissional para se dedicarem exclusivamente ao lar, ao marido e à família. Escrito pela diretora em parceria com Fernanda De Capua, o projeto nasceu do desejo de refletir sobre o negacionismo, o conservadorismo e a manipulação de valores na sociedade atual.

Em participação no Conversa Bem Viver, as protagonistas do elenco destacaram a contradição e o perigo presentes nesses discursos impulsionados nas redes sociais. A atriz Bruna Linzmeyer contou que é do interior de Santa Catarina e que recebeu com muita empolgação o convite para fazer o longa. “Eu tive muita vontade de fazer o filme quando eu li o roteiro e quando eu soube da história, não só pelo contexto geral, mas também pelo presente que é essa personagem”, afirma, ao explicar que é a vilã da trama. “Acho que é a minha primeira grande vilã da carreira, então essa foi uma das coisas que eu mais me emocionei”, conta.

A atriz Juliana Lourenção ressaltou o aspecto paradoxal de influenciadoras que lucram ao pregar a submissão feminina. “Para mim, era muito assustador essas mulheres que propagam valores ultraconservadores, pautas negacionistas, fazendo dinheiro. Elas falam para mulheres serem mães, serem esposas, mulheres de fé, ficarem ali no lar, submissas, porém essas mulheres estão fazendo o seu pezinho de meia ali na internet. E, para mim, isso me soa muito perigoso, porque é uma forma de entrar na mente das mulheres, de manipular os valores, de manipular as crenças. E aí a gente vai construindo um imaginário no Brasil, que vai ganhando força, que pode ser muito opressor, muito limitador e muito violento para tantas outras mulheres que não querem seguir o mesmo caminho”, avalia. “Não existe apenas uma forma de ser mulher”, resume Lourenção.

A repercussão em torno da obra e as reações do público já eram esperadas pela equipe antes mesmo da estreia nos cinemas. “A minha mãe tem uma frase muito boa que eu amo, que é: ‘Não criei filha para ser covarde'”, afirma a atriz Maria Galant. Para a artista, a produção cumpre um papel fundamental ao utilizar a arte do cinema como uma ferramenta de debate de temas atuais. “Essas questões que já estavam nesse universo, já estavam nesse mapa brasileiro, e a Cíntia e a Fernanda conseguiram identificar isso, aumentam o volume, e agora a gente está falando sobre coisas que estão acontecendo à nossa volta. É ficção, é cinema, mas é a forma também que a gente tem de falar sobre a nossa sociedade atual”, salienta.

A diretora Cíntia Domit Bittar traz uma provocação sobre o risco de esvaziamento da pauta feminista, que ela vê exposta no longa, que passa pelo debate de que tipo de representatividade e de modelos de mulheres estamos falando. “É muito raso você simplesmente dizer que ser mulher basta, ou, por exemplo, tem que votar em mulher, pronto. É muito importante, com certeza, [votar em mulheres], mas aí, do lado de uma figura que não é uma mulher progressista, que está consciente dessas pautas, que tem mulher em sua equipe e tudo mais, e, do outro lado, uma mulher ultraconservadora que vai retroceder em direitos adquiridos, você vai votar em uma mulher? E o filme coloca em tela mulheres que agem contrariamente a muitas conquistas votadas ao longo dos séculos”, argumenta.

Bittar também avalia que a própria realização do filme traz essa reflexão da importância de romper com estereótipos na construção de personagens. “A gente precisa também de mulheres más no cinema, de vilãs, de mulheres despudoradas, ambiciosas, no sentido ruim da palavra, porque a vilania, no contexto da dramaturgia, também está associada ao poder”, pondera a cineasta.

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Editado por: Gia Matheus Almeida

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