Um clima de luto dominou parte do Brasil após o resultado do primeiro turno das eleições, que colocou Flávio Bolsonaro (PL) em primeiro lugar com 47% dos votos e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), favorito nas pesquisas, em segundo com 45%. E não só isso: para o eleitor progressista, que valoriza as conquistas sociais, a onda de extrema direita que chegou ao Congresso Nacional e atingiu também governos estaduais e assembleias legislativas colaborou para piorar essa sensação de tristeza e desânimo.
Ao Conversa Bem Viver, a psicanalista Vera Iaconelli reconhece a delicadeza do atual momento, mas traz no discurso uma certa dose de esperança ao lembrar que “mesmo que a gente não tenha na história quem saiu no primeiro turno vencendo e tenha perdido no segundo, também a gente não tem na história uma proximidade tão grande” entre o primeiro e segundo colocado. “Estamos no jogo, estamos partindo para os pênaltis, e acho que vai depender da gente mesmo fazer o que a gente tem que fazer, que é correr atrás”, afirma.
Iaconelli reforça o conceito de que o luto deve ser plenamente vivido quando não há mais volta, o que não é verdade, já que o segundo turno ainda não aconteceu e, apesar de desafiador, há uma chance de reversão. Por isso, segundo a psicanalista, ela gosta tanto de comparar essa situação a um jogo de futebol e que uma postura derrotista não vai ajudar. “Estamos no jogo. O luto deve ser feito quando o objeto desapareceu de fato. Sofrer não significa paralisar. Não estou negando meu sofrimento, mas estou no páreo. Aquela história de que o cara está lá tem muita diferença. Você está no jogo e está perdendo, mas continua jogando até o final”, resume.
Para materializar o entusiasmo e captar votos de pessoas que não votaram em Lula, seja porque se abstiveram ou porque escolheram outros candidatos, Vera Iaconelli aposta em mudar a narrativa da campanha e critica o fato de que, em ambos os lados, só se falou de escândalo. “Tem uma série de projetos [do governo Lula] que são palpáveis, que estão em ação: isenção do IR, Pé-de-Meia, fortalecimento da Lei Maria da Penha. É muita coisa importante que a gente tem na nossa mão e aí, quando você pergunta o que em 23 anos de mandato Flávio Bolsonaro fez? Rigorosamente nada. Talvez a gente precise começar a falar em projetos”, defende.
Iaconelli pondera que ir para as ruas faz diferença, mas destaca que cada um tem sua forma de fazer política e elogia quadros jovens que foram eleitos no espectro progressista, que usaram as mídias sociais para conseguir se eleger.
Para a psicanalista, o elemento do antipetismo e o ódio de classe que as elites que formam e amparam, inclusive economicamente, a força da extrema direita fazem parte de um movimento mundial. Ainda assim, considera que há explicações na origem do Brasil enquanto sociedade.
“A forma como a gente se formou enquanto país é uma forma violenta. O Brasil não nasceu para ser país, ele nasceu para ser colônia extrativista. Então, a gente tem uma elite totalmente identificada com esse lugar. É uma elite curiosa que acha o Brasil bonitinho, meio exótico, sabe? Mas como se não fosse nada com eles. Na verdade, o sonho é morar em Miami, mas é tão bonito o samba, são tão bonitas as coisas. É tipo uma coisa exótica… Nesse lugar eles amam o Brasil, mas não é muito com eles. É um povo que não olha para a sua própria história”, resume.

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