Com o término da apuração do primeiro turno das eleições presidenciais, colocando o senador Flávio Bolsonaro (PL) à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), viralizou nas redes sociais a seguinte frase: “A apuração começou no dia 4 de outubro de 2026 e terminou em 1964”. A referência não é apenas à preferência no pleito presidencial pelo bolsonarismo, mas à avalanche de extrema direita no Congresso Nacional, nos governos dos estados e nas assembleias legislativas.
Ao Conversa Bem Viver, o ambientalista, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) Ailton Krenak avalia que o tempo não é linear, mas em espiral. “A história não volta para trás. É um movimento espiral do tempo, que só vai para cima, não volta”, defende.
Autor do livro “Ideias para adiar o fim do mundo” (Ed. Companhia das Letras), Krenak refuta a ideia de que existe uma tendência atual de as pessoas irem mais para a direita e defende que o que há é uma falta de compreensão de como tudo que fazemos no dia a dia das nossas vidas é político. O que acaba acontecendo, segundo o pensador, é que “a cada quatro anos, elas são lembradas de que existe eleição” e acabam se tornando vítima do que ele chama de “bullying da direita”. E reforça o distanciamento entre quem faz a política institucional e quem é impactado por ela. “Na rotina, no cotidiano, eles não elegem ninguém. Não elegem nem o síndico de onde moram, nem o chefe da aldeia. Essa ideia de uma prática frequente de escolher, indicar, votar, mobilizar, apoiar não é cultivada pelo povo em geral. Isso é pensamento prático de quem vive as agendas políticas”, argumenta.
Sobre a atual disputa, o escritor destaca o quanto tem havido investimento financeiro da direita global para que o Brasil se torne cada vez mais conservador e destaca o exemplo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que não tem medido esforços para interferir no processo eleitoral brasileiro. “Existe um assédio da direita global que manda a gente vir para o Brasil com um saco de grana para apoiar e patrocinar campanhas de cargos majoritários na República”, afirma.
Ailton Krenak lembra que a pandemia e a eleição de 2022, que aconteceu logo após esse período, expuseram como o negacionismo foi impulsionado pela manipulação das informações, fazendo com que as pessoas passassem a acreditar em mentiras.
“Dizem que a verdade, no sentido honesto e simples, pau é pau, pedra é pedra, é a melhor maneira de conversar com as pessoas para quebrar essa espécie de zumbizismo, esse estado de zumbi que está andando por aí. E é bom a gente não se esquecer de que nós estamos num contexto global em que a direita está avançando feito praga no mundo inteiro”, alerta.
Nesse sentido, o escritor sente que o governo ainda falha ao vocalizar as conquistas sociais, ficando muito restrito a falas de Lula. Outro problema apontado é o excessivo personalismo, que acaba impedindo que as pessoas debatam e compreendam do que se trata um projeto de país. “Além de chutar para gol, Lula tem que ir lá e pegar a bola. Então, assim, não houve ampliação dessa voz. A voz do Lula não foi acompanhada de um coro amplo, tonitroante, do avanço da vida social no Brasil a partir do governo do Lula”, pontua.
‘Precisamos aprender a ser cidadãos’
Por ocasião do centenário de Milton Santos, Krenak também avaliou, durante a conversa, a impossibilidade que o brasileiro teve em experimentar a cidadania. “Milton falava que a gente não tem democracia e a gente não tem cidadania. Cidadania não é uma coisa comum, compartilhada por toda a população do país. Ela é uma experiência limitada àqueles que sempre tiveram bens, tiveram propriedade, tiveram grana”, explica.
E ele atribui esse cenário ao próprio processo de construção do país, ao destacar que, até o final do século 19, só era cidadão no Brasil quem tinha propriedade. “A gente é um país que ainda precisa aprender a ser cidadão. Se der tempo, né?”, provoca.
Conversa Bem Viver

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