Quem vem lá?

Frei Betto: ‘Não será Lula que escolherá seu sucessor, isso é um processo social’

Líder religioso comenta vitória do presidente, virada na campanha protagonizada por Janones e desafios de 4º mandato

Frei Betto
Frei Betto | Crédito: Arquivo pessoal

Confirmada a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), já começam as discussões de qual será o nome que o sucederá a partir de 2030. Na opinião de um velho amigo do petista, conselheiro e companheiro de lutas, Frei Betto, essa decisão não cabe a uma pessoa específica, nem ao próprio Lula, mas sim a um “processo social” natural que acontece a partir do momento histórico.

“Lula foi gerado por aquelas greves do ABC na virada dos anos 1970 para 1980”, diz Frei Betto ao trazer o próprio presidente para explicar sua tese, na edição desta terça-feira (27) do Conversa Bem Viver, programa da Rádio Brasil de Fato.

Se tivesse que apostar em um nome, Frei Betto prefere não arriscar, mas cita o deputado federal André Janones como um exemplo da imprevisibilidade dessa escolha.

“De repente, nós temos aí um Janones. Ninguém falava em Janones há seis meses. E nem é do PT, nem do Psol, é da Rede. Então é isso. A política de repente faz alguém despontar, o processo social faz alguém despontar e temos que ficar atentos a isso.”

Frade Dominicano, Frei Betto foi um dos nomes mais importantes no combate à ditadura por parte da Igreja Católica. Liderou diversos movimentos sociais, foi preso, torturado e sempre esteve ao lado de grandes líderes da esquerda latino-americana, como Hugo Chávez e Fidel Castro.

Lula e Frei Betto se conheceram em janeiro de 1980, quando o presidente ainda atuava como líder das grandes greves do ABC. Segundo o religioso, logo no primeiro encontro já percebeu a grandiosidade que Lula representava e o grande futuro que lhe aguardava no Brasil. 

Sobre as eleições deste ano, Frei Betto faz uma avaliação muito positiva do segundo turno, que, segundo ele, foi capaz de superar deficiências históricas do PT e da esquerda.

“No primeiro turno, a comunicação, a propaganda eleitoral do Lula não foi bem feita. E nós tivemos, no segundo turno, a grande mobilização promovida pelo deputado André Janones. E isso contou muito, muito, muito.” Segundo Frei Betto, a mobilização de Janones foi capaz de tirar a “esquerda do salto alto e deixar os gabinetes.”

“Eu costumo dizer que nós somos analfabytes, enquanto a direita dá um banho”, brinca o frade.

Ele confessa que aderiu ao movimento Exército do Lula, embora tivesse suas ressalvas ao nome: “Esse nome Exército me cheira a militarismo, eu preferiria mutirão pró Lula, alguma coisa assim, ou mutirão popular. Mas tudo bem, funcionou.”

Por fim, Frei Betto comenta o que para ele é fundamental neste quarto mandato:

“A prioridade, na minha opinião, é manter os programas sociais com formação política dos beneficiados. Eu há anos insisto que é um erro o Bolsa Família não fazer capacitação profissional dos beneficiários, principalmente das mulheres, que são a maioria, e dentro desses cursos de capacitação introduzir o método Paulo Freire.”

“Não basta ter como condicionalidade apenas a vacina das crianças e a escolaridade. É preciso também fazer a capacitação, a formação da consciência crítica dos adultos beneficiados. Essa é uma das tarefas, entre tantas que temos.”

“O social, quando ele não é acompanhado de uma pedagogia que forme consciência crítica, vira caridade”, finaliza.

Conversa Bem Viver

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Editado por: Gia Matheus Almeida

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