O filme “Maria de Maria: um faroeste brasileiro”, protagonizado por uma cangaceira que migra para o Centro-Oeste do país e se torna agricultora, será exibido nesta quinta-feira (29) no espaço Reserva Cultural, integrando a programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Nanda Costa, atriz que interpreta Maria, e Luiza Shelling, diretora do longa, falam ao programa Conversa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato, sobre o filme.
A diretora comenta que desenvolver um western com uma liderança feminina sempre esteve nos seus planos. “Demorei para construir a carreira e encontrar uma história que se pudesse encaixar de uma maneira muito orgânica e natural. E ao desenvolver a história da Maria, ambientada na Goiás de 1940, dentro do universo da marcha para o oeste, é onde tudo se encaixou. Até Hollywood treme um pouco na base para fazer um filme de faroeste de protagonista feminina. Tem pouquíssimos, né? São raríssimos! A gente conta nos dedos quantos existem. Então essa ousadia de fazer esse tipo de coisa vindo do Brasil, eu acho que combina muito com ser brasileira.”
Shelling destaca a importância de Maria Bonita, primeira mulher a participar de um grupo de cangaceiros: “É a mulher que cria o arquétipo do cangaço, ela que desenvolve aquele estilo de se apresentar, o que criou um reconhecimento, criou uma identidade que se fala até hoje”, explica Shelling.
Nanda Costa ficou nacionalmente conhecida ao interpretar Morena na novela “Salve Jorge”, da Globo. A atriz diz que Morena foi sua menina e Maria de Maria é sua mulher. “Maria de Maria foi um presente para eu não esquecer dessa força que eu tenho, que podem tentar nos derrubar, e a gente vai seguir firme e forte. Depois que a gente é mãe, acaba tendo muitos outros medos. Numa cena, ela olhou e falou: ‘O útero de uma mulher tem que ser firme o suficiente para segurar uma criança e macio para não machucá-la’. E eu pensei: ‘Eu segurei duas ao mesmo tempo, então eu vou com tudo’.”
A arma de fogo no faroeste
Para ser fiel ao estilo faroeste, Maria de Maria tem e usa uma arma, mas Shelling acredita que, mesmo no mundo da ficção, armas são um assunto muito sensível. “A gente procurou seguir muito no filme o clássico do western. Você só vai morrer se tentar matar, que é antítese dessa ideia maluca de liberar arma para todo mundo. Eu acho que isso é um verdadeiro absurdo. No mundo do cinema, a arma tem que ser tratada com muito respeito. Ela tem que estar num lugar muito correto.”
Nanda exemplifica a contextualização que a arma de fogo tem no filme. “[A Maria de Maria diz:] ‘A gente não vai usar isso, só se for para conseguir comida para o nosso filho’. Ali é uma questão de sobrevivência, nesse lugar da mãe que a gente realmente vira bicho, ver o filho morrendo e todas as injustiças que acontecem. Então, tem um propósito.”
Questão fundiária
O conflito de terra no Brasil está no pano de fundo da história da cangaceira que se torna agricultora. A atriz Nanda Costa lamenta que a ocupação de terras no Brasil hoje venha afetando tanto o ecossistema e alerta para a necessidade de salvaguardar o espaço da produção familiar de alimentos. “É urgente que a gente consiga ser guardiões de terras nesse lugar para preservá-las, que se respeitem os pequenos produtores. Eu tento fortalecer como eu posso, comprando, indo às feiras, de alguma maneira”.
Já a diretora do longa lembra que cerca de 40% da agricultura familiar, que planta para se comer, é liderada por mulheres. “Essa mulher do campo, que está na pequena propriedade, plantando comida de fato, é um povo de muito valor. É gente que tem um compromisso verdadeiro com a terra e que literalmente está colocando a mão na terra”, destaca Luiza Shelling.
Conversa Bem Viver

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