O documentário “144 – Apocalipse Não”, dirigido pelo cineasta e escritor João Paulo Cuenca, terá uma sessão extra na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo neste domingo (1º), às 20h, no CineSesc. O filme narra um momento tumultuado: após uma postagem nas redes sociais com referências à família Bolsonaro e à Igreja Universal, J.P. Cuenca virou alvo de 144 processos abertos por pastores evangélicos.
Em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato, o cinesta explica que a ideia do documentário nasce da superação do medo pela curiosidade. O sentimento inicial de desespero deu lugar à busca de saber mais sobre as cidades e as pequenas igrejas que tinham-no processado. Ele verificou que os processos eram muito parecidos.
“Isso foi me dando muita curiosidade de conhecer um pouco o outro lado do papel. Porque era fabricada a estratégia da igreja para fazer esse assédio jurídico. Foram espalhados modelos de ação quase iguais. São poucos modelos espalhados pelo Brasil inteiro”, explicou Cuenca.
Para realizar o filme, Cuenca percorreu mais de 10 mil quilômetros pelo Brasil atrás dessas igrejas e pastores. Chegou inclusive a cidades muito pequenas. Com isso, percebeu que não é possível enquadrar o público evangélico todo dentro de um formato estanque.
“Eu acho um erro de análise tremendo do campo progressista estereotipar todo mundo como uma coisa só e não levar em conta a fé na dimensão da análise. A fé existe em qualquer uma dessas igrejas, inclusive nas igrejas mais mercenárias ou com os pastores que você pode questionar as intenções deles. Mas as pessoas, os fiéis, a fé deles é real”, reflete o diretor.
Além de desenvolver o projeto do filme e buscar suporte jurídico para sua defesa, Cuenca também tornou público o quanto pode todos os processos, como mecanismo de proteção.
“Eu recebi milhares de ameaças de morte naquela época. E divulgar era um jeito de fazer contato com parte da sociedade que luta contra o assédio jurídico. A gente conseguiu apoios de associações de imprensa, de jornalismo, de juristas, de pessoas que ajudaram isso a virar um caso no Supremo Tribunal Federal do Brasil. Então, hoje tem uma jurisprudência brasileira que não permite mais esse tipo de caso repetitivo. Quer dizer, o meu número recorde de 144 processos nunca mais vai se repetir, porque ninguém nunca mais vai processar uma pessoa com ações repetitivas usando o Juizado Especial Cível.”
Segundo Cuenca, a intenção foi fazer um filme de escuta, para que o público possa se perguntar sobre os seus pontos em comum com aquele outro. Ele destaca a disponibilidade observada do processo eleitoral à presidência do Brasil, que teve o segundo turno de votação no último domingo (25): “Uma das coisas legais dessa virada foi uma disposição do campo progressista para ouvir um pouco mais as pessoas. Não estamos ouvindo o suficiente ainda. Ganhamos essa eleição, mas precisamos continuar com essa disposição de conversar com elas, mesmo que professem fé em crenças e estejam em campo ideológico diferente do nosso.”
O cineasta completa dizendo que nem todas as pessoas que votaram em Flávio Bolsonaro nessa eleição são bolsonaristas. “O Brasil não tem 60 milhões de fascistas, ou pelo menos ainda não tem. A gente tem que conversar com essas pessoas. E como é que você começa uma conversa? Ouvindo. Quem não tem, aprenda a ter curiosidade genuína pelo contexto do outro, de onde o outro vem, a história de vida do outro”, pondera escritor.
Conversa Bem Viver

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