“O samba é preto, senhoras e senhores. Ele aceita todo mundo, mas o samba é preto“, a frase dita com a serenidade de quem construiu uma trajetória de mais de duas décadas no samba paulistano resume o pensamento e a obra de Roberta Oliveira. Cantora, compositora e educadora, ela é uma das vozes proeminentes do gênero em São Paulo, e acaba de retornar de uma temporada no sul da Bahia para comandar mais um ano do Samburbano. Após 11 anos no Largo da Santa Cecília, a roda de samba migrou recentemente para a Barra Funda, território histórico da cultura negra na região central da capital paulista.
A artista descreve a mudança do Samburbano para a Barra Funda como um retorno simbólico. “A Barra Funda, assim como Bela Vista, Campos Elíseos, Brasilândia, é território preto. Foi construída por negros. Então, se faz parte da cultura negra, com certeza vai ter samba ali”, afirma ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato.
A decisão de deixar o Largo da Santa Cecília veio após anos de conflitos com vizinhos, denúncias à polícia e a luta constante por autorizações. “Era muito trabalhoso. Eu chegava a chorar antes de cantar. Mas o choro no lugar certo dá fruto”, lembra. Foi assim que ela encontrou acolhimento na Iniciativa Negra, projeto que já desenvolvia ações culturais na Barra Funda, e no apoio do tradicional Bar do Chagas.
O primeiro Samburbano na nova casa reuniu cerca de 2 mil pessoas. No segundo, 3 mil. E a velha guarda marcou presença. “ZéLão subiu quatro vezes no palco. Porque ele tem acesso, ele sabe. A velha guarda é o meu alicerce, meu tudo. Eu só canto porque seu Carlão brigou, porque seu Dadinho brigou, porque o Toninho fez música boa, porque a Bernadete resiste até hoje”, celebra.
Para Roberta, o samba é rito, memória e ferramenta de transformação, que vai ao encontro do seu trabalho na educação.
“Eu sou educadora até morrer. Meu trabalho é educar, mostrar que a velha guarda não é só Zeca Pagodinho, é também Nelson Cavaquinho, Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini. Tem muita gente que fez samba lá atrás e não é lembrada”, aponta.
Ela critica a mercantilização e a falta de estudo sobre o gênero. “As pessoas não querem ouvir o que está cantando, querem se ouvir. Sabem mal e mal o refrão. Mas o samba não é bagunça. A roda de samba é um ciclo, como na capoeira, como na gira. Tem fundamento ancestral.”
O sagrado no samba e a luta das mulheres
Roberta faz questão de trazer a dimensão religiosa para sua arte. “O samba vem de África, vem de orixá. Eu sou de orixá, sou de macumba. Então, sempre coloco no meu repertório alguma coisa de terreiro.” Em fevereiro, ela se apresentará em um terreiro, a convite do pai Flávio e Salete.
Ela também se posiciona sobre a violência contra a mulher e a disputa entre artistas. “Tem músicas que eu mudo a letra ou não canto. Peço licença ao autor, mas não dá mais. A arte não é contemplativa, ela é transformadora. E a gente precisa se unir. Mulher dividida perde força. É mais fácil dominar um povo fragmentado”, explica.
Para Roberta, o ano só começa depois do Carnaval. E ela tem esperanças. “Espero que 2026 seja o ano da cultura do respeito, das igualdades, de possibilidades iguais. Que a gente não fique só cultuando quem já passou, mas celebre quem está aqui ralando. Que as leis de incentivo cheguem na mão de quem realmente precisa trabalhar.”
O Samburbano é gratuito, com programação divulgada no Instagram (@robertaeobandodela e @projetosamburbano_sp). O disco “Pejí” está disponível nas plataformas digitais, reafirmando o samba como altar, memória e voz de um povo que não se cala.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
