segurança pública

‘Remédio oferecido contra a violência no Brasil não funciona e talvez tenha piorado o quadro’, diz especialista

David Marques avalia redução de homicídios em contraponto ao aumento de outras formas de violência

Crédito: Agência Brasil: Paulo Pinto/Agência Brasil
População deve cobrar respostas efetivas no combate ao crime organizado | Crédito: Paulo Pinto/Agência Brasil

O crime organizado está mudando a forma como a violência se manifesta no Brasil. Essa é uma das sínteses do diagnóstico trazido pelos dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que mostram a queda dos homicídios, ao mesmo tempo em que o país enfrenta o aumento de outras formas de violência, como o feminicídio, violência contra crianças e adolescentes, crimes digitais e a letalidade policial, que segue em patamar elevado. Em 2025, foram registradas 40.775 mortes intencionais, uma taxa de 19,1 por 100 mil habitantes, uma queda de 31% na comparação com 2012.

Às vésperas das eleições, a segurança pública voltou ao centro do debate, já que é apontada pela maioria dos brasileiros como uma das maiores preocupações. Ao BdF Entrevista, David Marques, sociólogo e gerente de programas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, defende que a discussão sobre segurança pública precisa incorporar investigação, inteligência, prevenção e políticas capazes de enfrentar as diferentes dimensões da violência no país.

Marques apontou que o Anuário revela um “processo de transformação na estrutura da violência que acomete a sociedade brasileira”. “A gente vem acompanhando a tendência de redução das mortes violentas intencionais, pelo menos, desde 2018. O pico da taxa das mortes violentas intencionais foi em 2017. Desde então, a gente tem visto uma queda quase ininterrupta dessas taxas, desses números, de uma forma bastante significativa”, aponta.

O especialista chamou a atenção para o crescimento explosivo dos estelionatos, que saltaram mais de 430% desde 2018, movido por “engrenagens industriais” de fraudes digitais que as polícias militares, focadas no patrulhamento ostensivo, não conseguem alcançar.

Marques criticou a opção política de muitos estados brasileiros pelo confronto direto e pela letalidade policial como resposta ao crime organizado, argumentando que essa estratégia não tem surtido efeito contra facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).

“Boa parte desses homicídios dolosos está ligada à forma como tem se intensificado a dinâmica criminal organizada. Que aqui no nosso país é muito caracterizada pelas chamadas facções criminosas”, destaca, ao avaliar que essa dinâmica acaba gerando um cenário de briga de gangues, atravessada pelo narcotráfico e por ordens superiores que, muitas vezes, partem de dentro do sistema prisional.

Para ele, o foco excessivo no enfrentamento, muito centrado em grandes operações policiais, tem se mostrado equivocado. A prova disso são os dados de estados como Bahia e Amapá, que têm investido na força policial como forma de combater o crime.

“Se a gente pegar as taxas de homicídio do Brasil e as taxas de letalidade policial, os dois primeiros lugares são os mesmos estados. O Amapá tem a maior taxa de mortes violentas intencionais e a maior taxa de letalidade. A Bahia, em segundo lugar, nas duas taxas. São estados que estão tentando reagir ao crime organizado, colocando mais lenha na fogueira”, avalia.

“O remédio que está sendo oferecido não está conseguindo contribuir com a saúde do paciente e talvez esteja ajudando a piorar a situação”, sintetiza.

Projetando o cenário para as eleições de 2026, Marques defendeu que o debate sobre segurança pública precisa superar discursos rasos e supostas soluções simples para problemas complexos. “A gente já falou que há um deslocamento da modalidade criminal relacionada aos crimes patrimoniais para o ambiente digital. Em relação a esses crimes, a polícia militar não alcança esse tipo de criminalidade. Isso demanda investigação criminal, que é tarefa das polícias civis, as quais têm muito menos visibilidade do que as polícias militares. Então, essa linha de fortalecimento da segurança por meio da investigação criminal, do aperfeiçoamento da inteligência, por ter menos visibilidade, acaba sendo preterida em relação a esse policiamento ostensivo, que vai dar mais imagens”, pontua.

O pesquisador destacou ainda que o crime organizado hoje se infiltra em setores econômicos diversos, como combustíveis e fintechs, exigindo uma governança que vá além da atuação policial, como demonstrou a Operação Carbono. “A gente tem um crime organizado que não parou de crescer, não parou de se desenvolver. E é um processo bastante preocupante, de fato. A infiltração do crime organizado em áreas onde antes ele não estava presente dessa forma impacta instituições, impacta mercados”, destaca.

Segundo David Marques, a sociedade deve cobrar propostas mais sólidas dos candidatos nas eleições deste ano, que não sejam simplesmente aumentar a violência das polícias. “É hora de termos um projeto mais abrangente para a área e não ficar só batendo sempre na mesma tecla de deixar a polícia resolver o problema do crime organizado”, critica.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Rodrigo Gomes

|

Newsletter