Vacinação em SP

‘É inadmissível ter mortes por uma doença evitável’: especialista comenta volta do sarampo

Infectologista Renato Kfouri debate desafios da vacinação no Brasil, responsabilidade do poder público e a desinformação

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O sarampo voltou ao Brasil | Crédito: Divulgação

O sarampo voltou a circular em São Paulo e a baixa cobertura vacinal acende um alerta sobre a capacidade do poder público de proteger a população contra doenças preveníveis por vacina. O governo do estado passou a adotar uma estratégia de uma imunização extra para pessoas de 6 meses a 59 anos nesses três municípios. Para bebês de 6 meses até 11 meses e 29 dias, entrou em cena a chamada dose zero, que não substitui a imunização do calendário regular de rotina.

Mas o que o retorno de uma doença altamente transmissível e que estava controlada desde 2016 revela?

O pediatra infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), conta que o primeiro retorno da circulação da doença após esse controle se deu entre 2017 e 2019 com a entrada de muitos migrantes venezuelanos não imunizados pela fronteira norte do país. Na época, houve campanha para a cobertura vacinal e, em 2024, o país voltou ao patamar de controle da doença. No ano passado, conta Kfouri, o Brasil teve 39 casos confirmados, todos de pessoas que trouxeram a doença de fora, e a maioria nos estados do Mato Grosso e Tocantins. “A gente conseguiu controlar, bloquear, isolar, vacinar os contatos. Com isso, a cobertura vacinal estava elevada e isso fez com que, naquelas regiões onde entraram essas pessoas, não se voltasse a ter a circulação do sarampo”, aponta ao BdF Entrevista.

Em 2026, até o momento, são 16 casos confirmados, todos em São Paulo. Segundo Renato Kfouri, o que se vê, em especial na capital paulista e Grande São Paulo, é o que os médicos chamam de “transmissão em cadeia”. “As pessoas se deslocam muito durante o dia, há uma aglomeração, um adensamento populacional muito grande. É um hub de entrada de portos, aeroportos, Guarulhos, que é [um aeroporto] internacional, muitos ônibus rodoviários com grande fluxo de, especialmente aqui, países latino-americanos. Então, a gente tem todas as condições aqui para ser a porta de entrada de casos”, explica.

Metade dos casos atualmente monitorados no Brasil são de menores de dois anos, o que evidencia a importância da vacina. “A cobertura vacinal precisa ser em todas as faixas etárias, no geral. Os menores de 60 precisam ter vacina de forma homogênea, porque às vezes aparecem bolsões de baixa cobertura. Por exemplo, a cobertura está em 90%, mas podem ter locais com cobertura de 40%, 50%. E esses bolsões podem funcionar como reservatório de suscetíveis, aí propiciando o surgimento do sarampo novamente. O desafio é grande”, afirma. “Precisamos buscar os não vacinados”, resume.

Um dos elementos desafiadores, segundo Renato Kfouri, é a desinformação. E um deles parte de pessoas que costumam dizer: “Não me lembro se tomei”. Ele afirma que a vacina só serve se tiver comprovada e sugere que quem não tem essa comprovação se imunize novamente. “O sarampo, infelizmente, ainda faz vítimas fatais. Só na América do Norte, o ano passado, foram mais de 30 mortes por sarampo. É inadmissível, nos dias de hoje, a gente ter alguém com uma doença para a qual tem uma vacina segura, altamente eficaz, ter casos e ter mortes relacionados a ela”, defende.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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