No dia 12 de agosto de 1798, a Bahia despertou com panfletos que clamavam pela liberdade, marcando o início da Conjuração Baiana, também conhecida como Revolta dos Alfaiates, um dos principais movimentos de contestação à ordem colonial no Brasil.
Embora o movimento seja tradicionalmente descrito como essencialmente popular, o trabalho da historiadora Patrícia Valim, professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), revela uma composição social mais complexa, envolvendo desde escravizados e artesãos até membros da elite baiana, como a chamada “corporação dos enteados”. “Teve até a participação de mulheres e crianças nesse processo”, revela ao BdF Entrevista.
Ela explica que a revolta não foi um evento isolado das camadas mais baixas, mas um reflexo de crises profundas que atingiam diferentes classes da sociedade colonial. “Todos esses setores, naquele momento, vivenciavam uma crise. Não eram crises iguais, mas havia uma conjuntura de crises conexas: econômica, crise dos arranjos do escravismo…”, reforça, destacando que
Enquanto a elite buscava renegociar sua posição de poder frente à coroa portuguesa, os setores intermediários e escravizados lutavam por direitos fundamentais, como melhores soldos, tratamento humanizado e a própria alforria.
“O escravismo é o limite e a possibilidade do exercício político de homens pobres, libertos e livres, porque eles não viam outra possibilidade de conquistar direitos fora daquilo que a gente entende hoje como conciliação. Eles se articulam com setor dominante para tentar obter pelo menos a redução de danos dos seus direitos”, resume.
Influências estrangeiras
Mobilizando as pessoas escravizadas, havia a notícia da abolição da escravidão em Portugal, que chegava ao Brasil colônia. “E isso aconteceu não porque eles [portugueses] eram abolicionistas, mas porque a presença de pessoas negras na Corte, em Lisboa, era um sinal de atraso”, pontua.
A pesquisa de Valim destaca que o vocabulário da revolta sofreu influência do Iluminismo, mas a realidade local moldou as reivindicações de forma singular. A tradução de ideais não era uma mera cópia europeia. “O vocabulário é francês, mas é francês a partir de uma leitura muito própria das crises conexas que estavam acontecendo no final do século 18”, pontua, ao destacar o caráter de monarquia absolutista católica sobre a qual Portugal se forjou, sendo distinto do que ela chama de “ilustração francesa”.
Elites saem mais fortes
“A Conjuração Baiana vai reforçar o poder absolutista, porque, a partir de um desafio imposto às autoridades locais e às autoridades régias, há toda uma renegociação com setores dominantes. Você tem soluções de compromisso que vão fortalecer o setor dominante da capitania da Bahia, que, ao fim e ao cabo, é o que dá base de sustentação para a relação de exploração e dominação coloniais”, explica a pesquisadora.
O desfecho do movimento evidenciou assim a seletividade da justiça colonial, que poupou os poderosos enquanto condenava os líderes populares. João de Deus, Lucas Dantas, Manuel Faustino e Luiz Gonzaga foram nomes encaminhados ao enforcamento e esquartejamento. As pessoas escravizadas, reforça a historiadora, foram poupadas apenas “porque isso significaria um prejuízo para os proprietários, para o setor dominante”.
Apesar da repressão violenta, Patrícia Valim argumenta que o movimento deixou um legado de resistência que ecoa até os dias atuais, inclusive com a participação ativa e muitas vezes silenciada de mulheres na retaguarda da conjura. “O legado da conjuração baiana é uma capacidade enorme de articulação política dos setores. Há um dispositivo de cooperação de classe”, explica.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
