As operações de combate à lavagem de dinheiro na avenida Faria Lima revelaram uma conexão profunda entre facções criminosas e o mercado financeiro. Termos como fintechs e criptoativos migraram das páginas de economia para o noticiário policial.
Com a digitalização da economia e o aumento da fiscalização em sistemas bancários convencionais, o crime organizado passou a buscar brechas em tecnologias que operam à margem da regulamentação. Segundo Felipe Ramos Garcia, pesquisador no Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), essa mudança é estratégica: “Os criptoativos surgem justamente por essa brecha. Eles são um pouco mais difíceis de serem rastreados, justamente porque qualquer um pode criar. Eles não têm nenhum lastro físico, não precisam passar necessariamente pelo sistema bancário formal. Na verdade, eles surgem à margem do sistema bancário formal”, afirma ao BdF Entrevista.
A atratividade das fintechs para o crime reside assim na regulação menos rigorosa em comparação aos bancos tradicionais e, também, na agilidade. Essas empresas permitem que grandes volumes de dinheiro ilícito sejam rapidamente misturados a fundos legítimos, criando um “nó” difícil de desatar pela fiscalização.
Garcia destaca que o crime organizado busca dar um verniz de legalidade aos seus recursos para que possam gerar riqueza real. “Porque, se ele estiver só como criptoativo, fica um pouco complicado também para que ele seja movimentado, para que ele gere, de fato, riqueza”, reforça.
Sobre essa dinâmica, o entrevistado explica que “as fintechs, por terem menos regulação do que o sistema bancário tradicional, e por já crescerem negociando e trabalhando com esses criptoativos, são atrativas justamente para o crime organizado”.
O cenário atual mostra que a legislação brasileira muitas vezes “corre atrás do rabo”, tentando acompanhar tecnologias que avançam rapidamente. Na Faria Lima, o problema central identificado por Felipe Ramos Garcia não é apenas uma “infiltração” direta de criminosos, mas uma “grande vista grossa” ou leniência de gestores que ignoram a origem suspeita de aportes milionários em prol do lucro. “A tecnologia propriamente dita não é um problema. O grande problema é a falta de regulação em torno dela e em torno também das fintechs”, diz. “As fintechs surgem em um contexto com menos regulação em relação ao sistema bancário formal; elas têm menos responsabilidades em relação a reportar transações”, exemplifica.
Ele defende que o mercado e o Estado precisam ser mais rígidos com a norma de “conhecer seu cliente”. Para o pesquisador, a omissão é um convite ao crime. “Se alguém chega na porta da sua casa com uma mala de dinheiro, qualquer cidadão ia achar estranho. Não é possível que uma empresa dessa ia achar normal. Se a gente banalizar isso, isso também é uma das brechas, digamos assim, que o crime organizado se aproveita”, destaca.
Confira a entrevista completa:
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
