'Mulher pode tudo'

As Mercenárias: como as mulheres no punk revolucionaram a cena dos anos 1980

Sandra Coutinho fala sobre formação política na USP, críticas ao patriarcado e preparação para turnê internacional

sandra coutinho
Sandra Coutinho | Crédito: Divulgação

Fundada na década de 1980 pela baixista Sandra Coutinho, a banda punk paulista As Mercenárias desafiou as convenções da época com uma proposta musical inovadora e integralmente feminina. A estreia do grupo se deu com o álbum “Cadê as armas”, que chegou a ser eleito pela revista Rolling Stone como o quinto melhor do gênero no Brasil. Vinda de uma família de mulheres independentes e musicistas, Coutinho conta que o gênero nunca foi encarado por ela como uma barreira para a criação. “Eu já vi que mulher pode tudo. Quer dizer, eu nunca nem pensei que mulher não podia nada”, brinca.

Essa mentalidade libertária e o espírito de autonomia, segundo ela, pautaram a trajetória do grupo com muita autenticidade. “A gente trabalhou criativamente com as nossas limitações. Ninguém esmerilhava e também nem era essa proposta. Mas encontrar soluções criativas para a nossa expressão”, explica ao BdF Entrevista.

A trajetória de Sandra Coutinho também é profundamente marcada por sua formação política como estudante da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e ex-militante do grupo Liberdade e Luta (Libelu). “Eu acho que muito da arte, dos conceitos de arte, foi esse aprendizado político que eu tive na USP. Porque a Libelu, as cabeças, eram mais na praia do surrealismo, das intervenções culturais, do rock and roll”, conta.

Toda essa bagagem acabou influenciando composições de forte crítica social e de contestação ao patriarcado, à polícia e à igreja, com destaque para letras como “Santa Igreja” e “Honra”, escrita para questionar tabus masculinos e expectativas sociais.

Ao analisar o cenário atual, a fundadora aponta como as linguagens e estéticas de contestação do passado foram facilmente cooptadas pelo consumo e pela extrema direita, além de notar uma piora nas estruturas de manipulação social do dia a dia. “Eles sugam, eles pegam, eles incorporam essa linguagem. Então, o que na época um cara fazia tatuagem ou tinha um brinco era uma expressão de contestação. Hoje em dia, não. Tem um monte de gente com mil tatuagens, e é completamente de extrema direita. Acho que a esquerda sempre tem que ser muito criativa, se renovar e conseguir mudar de cara para poder contestar”, avalia.

Sobre o impacto dessas composições históricas, Sandra Coutinho afirma que seriam consideradas “leves comparado com hoje em dia”. Ainda assim, mais de 40 anos após o surgimento do grupo, o legado de As Mercenárias continua a atrair um público de todas as gerações e a abrir caminhos internacionais, com turnê de 15 dias planejada para Berlim, financiada pelo Instituto Goethe.

Atualmente, a artista expressa uma inquietação artística e uma busca constante pelo novo, desejando explorar sonoridades diferentes que fujam da mera reprodução do repertório clássico da banda. Para ela, em um Brasil pós-ditadura, no qual o palanque político já existe em outros espaços, o palco contemporâneo deve atuar principalmente como um refúgio para a imaginação humana e para a quebra de padrões estéticos rígidos. “A liberdade de expressão é você ampliar para poder sair de uma regra. Sair do tonal, sair do 4×4, ter letras que buscam o sonho, a imaginação, as conexões que a gente não realiza na vida”, reflete.

Confira a entrevista completa:

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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