O ano era 1991 e o fim da União Soviética era decretado. De lá para cá, o mundo, então bipolar, foi sendo cada vez mais transformado, abrindo espaço para multilateralismo, profundas transformações sociais, o crescimento da China, o imperialismo estadunidense cada vez mais em xeque e o avanço da extrema direita.
O historiador e comunicador popular João Carvalho defende que é exatamente nesse cenário que o socialismo se mostra como caminho possível e é cada vez mais necessário discutir estratégias para uma sociedade mais justa. Ao BdF Entrevista, Carvalho argumenta que o capitalismo, assim como todo e qualquer modo de produção, é histórico, não natural, e que é um sistema que atingiu seus limites estruturais e ecológicos. Nesse sentido, afirma, sem hesitar: o “capitalismo é um sistema irreformável“. “Se a gente não conseguir destruir o capitalismo, o capitalismo vai nos destruir”, sentencia.
Carvalho argumenta que o capitalismo, sistema baseado na exploração do homem pelo homem, saturou e dá alguns exemplos, como a falta de água ou a fome. “Desde a década de 70, a humanidade tem mais do que capacidade técnica para que ninguém, em lugar nenhum do mundo, passe fome. Ainda assim, milhões de pessoas morrem de fome. Milhares e centenas de milhares de pessoas morrem por ausência de vacina. Milhões de pessoas morrem por falta de água. Isso nos mostra um sistema falido”, afirma.
Nesse sentido, ele defende a mobilização das massas rumo a uma alternativa socialista. “Para nós, que somos marxistas, que somos revolucionários, a revolução é a construção do socialismo rumo ao comunismo como o horizonte final”, reforça.
“A gente precisa de uma divisão mais justa, de uma divisão mais equitativa. Então, o que a gente luta é para isso, para uma sociedade melhor para todos e não para uma sociedade em que um sujeito consiga ter um iate tão grande que, na piscina desse iate, ele tenha um iate menor”, brinca. Para ele, essa dinâmica de lucro sobre lucro torna o sistema “infactível”, pois exige uma expansão constante em um planeta com recursos finitos.
João Carvalho comenta sobre uma pesquisa, ironicamente criada pelo macartismo nos EUA, que mensura a aceitação de ideias socialistas na sociedade. Segundo o historiador, o levantamento mais recente mostra que, em aproximadamente 50 anos, é a primeira vez “na história dos EUA que a maioria dos jovens considera o socialismo, o comunismo uma boa. Isso nunca tinha acontecido antes”.
Coerção e não cooperação
No campo geopolítico, o historiador aponta o surgimento de uma ordem multipolar que desafia a hegemonia dos Estados Unidos, país que descreve como uma potência em decadência e um “gigante com pés de barro”. Carvalho sustenta que a influência estadunidense sobre outras nações é mantida mais pela coerção do que pela cooperação, declarando que “os Estados Unidos não têm aliados. Os Estados Unidos têm reféns e alguns deles estão em síndrome de Estocolmo”. No entanto, considera que há também um embate bipolar entre China e EUA.
Como alternativa para o Sul Global, ele sugere o fortalecimento de blocos como o Brics e o desenvolvimento de sistemas financeiros independentes do dólar, acreditando que o rompimento dessa dependência monetária seria o golpe final na supremacia imperialista. Carvalho defende que, muitas vezes, o Brasil busca a via de negociação e deveria entrar mais de cabeça no Brics e nos planos da construção de uma moeda do bloco.
“O Brasil desenvolveu o melhor sistema de pagamento e compensações bancárias do planeta, chamado Pix, que não foi criado pelo Lula, não foi criado pelo Bolsonaro, foi criado pelos servidores públicos dessa nação e que é capaz de destruir a hegemonia do dólar no planeta”, defende.
Confira a entrevista completa abaixo:
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
