guerra ao terror

‘O que mudou o mundo foi a reação dos EUA ao 11 de setembro’, afirma analista 25 anos após ataques

Para Reginaldo Nasser, guerras no Afeganistão e no Iraque ampliaram instabilidade e contribuíram para ampliar extremismo

afp
11 de setembro mudou o mundo para sempre | Crédito: AFP

É difícil esquecer as imagens que foram transmitidas nas redes de televisão do mundo todo na manhã de 11 de setembro de 2001, e que entraram para a história como um dos fatos mais marcantes do século 21. Um avião colidiu contra um dos prédios do complexo World Trade Center, que reunia sete edifícios, em Nova York (EUA). O alvo eram dois deles, as chamadas Torres Gêmeas.

Exatamente 17 minutos depois, quando as câmeras de TV já estavam a postos e todos tentavam entender o que estava acontecendo, um segundo avião atingiu o outro prédio. Mais de 3 mil pessoas morreram nos atentados. Outras duas aeronaves sequestradas também foram usadas nos ataques: uma atingiu o Pentágono, centro da defesa estadunidense, e outra caiu em um descampado na Pensilvânia. As investigações apontaram a Al-Qaeda como responsável pela ação.

Em resposta, os Estados Unidos deram início à “guerra ao terror“, um marco de uma nova fase de instabilidade política no Oriente Médio, moldando a geopolítica global e as relações entre os países até os dias de hoje, 25 anos depois dos ataques.

Ao BdF Entrevista, o professor de Relações Internacionais Reginaldo Nasser, autor do livro “A Luta contra o Terrorismo, os Estados Unidos e os Amigos Talibãs” (Editora Contracorrente), afirma que o verdadeiro marco de transformação não foi o ataque em si, mas a resposta militar promovida pelas potências ocidentais. “O que mudou, o que transformou o mundo, foi a reação ao 11 de setembro. É um fato que, sem dúvida nenhuma, se transformou no divisor de águas desse chamado momento pós-Guerra Fria”, destaca.

Nasser conta que, anos antes do atentado, quando Bill Clinton ainda era o presidente, ele chegou a falar publicamente no nome, ainda desconhecido, de Osama Bin Laden.

Com a justificativa de combater o extremismo, o governo George W. Bush iniciou uma estratégia de ocupação no Afeganistão e no Iraque, com fortalecimento da indústria bélica. “De certa forma, é uma contradição, uma incongruência, mas os Estados Unidos começaram a mostrar que estavam se aproveitando do atentado. Em que sentido? Ocupar o Afeganistão não vai acabar com o terrorismo. Os terroristas, aliás, não tinham nenhum afegão. E se dizia que treinaram no Afeganistão, de jeito nenhum, eles treinaram pilotar nos Estados Unidos”, reforça.

Segundo o professor, depois do Afeganistão veio a ocupação do Iraque com a mesma falaciosa justificativa de combater o terrorismo. Ao contrário do que publicamente alegavam, destaca Nasser, a intervenção estadunidense estimulou o surgimento de novas organizações e o aumento no número de atentados. “Fica claro que os Estados Unidos se serviram disso para se lançar e construir, trazer essa ideia de império”, aponta.

Para ele, o tempo mostrou que os Estados Unidos aumentaram o poder ao mesmo tempo em que perceberam que nem todo o seu poder é capaz de realizar os alegados objetivos. “O país mostrou que tem recursos para ser um império, mas mostrou também que há resistências a esse império e que, portanto, ele não pode fazer o que quer”, argumenta. “O sistema de vigilância aumentou, sob o argumento de combater o terrorismo, e o terrorismo aumentou.”

Sobre isso, Reginaldo Nasser aponta o aumento de poderio do Estado Islâmico, “com um sentido de ocupação muito maior que a Al-Qaeda”, que chegou a ocupar um território do tamanho da Jordânia, administrando cerca de 6 milhões de pessoas.

Além da instabilidade política, os custos humanos e econômicos da chamada “guerra ao terror” atingiram proporções astronômicas ao longo de duas décadas. Nasser conta que estimativas da Universidade Brown apontam para cerca de 8 milhões de mortes diretas e indiretas decorrentes dos conflitos, acompanhadas por gastos estadunidenses na ordem de US$ 8 trilhões.

“O maior crime não foram os atentados. Não foram as ações terroristas. Foram as ações que se cobriram de um véu para atacar o terrorismo. O terrorismo começou a ser hiperdimensionado. Os Estados começaram a se valer de medidas mais arbitrárias. As excepcionalidades ganharam força”, explica. 

Reginaldo Nasser também transpõe o debate para os impactos nos dias de hoje e ressalta que a conjuntura atual caminha para uma nova configuração geopolítica, marcada pela emergência da multipolaridade e pela resistência à hegemonia de Washington. A prova disso é o que acontece neste momento no conflito entre EUA e Irã, e também na América Latina, com países entregues à ingerência de Donald Trump, e outros em resistência.

“A Venezuela está sob tutela dos EUA, mas o Brasil e o México não. Acho que a gente tem que olhar também para o mundo dessa forma, dessas resistências: resistência do Irã, resistência ao genocídio em Gaza. O sistema financeiro norte-americano, embora seja dominante, não é hegemônico”, afirma com otimismo.

Para o professor, a consolidação de atores regionais e blocos econômicos reflete a incapacidade dos Estados Unidos de impor ordens unilaterais irrestritas. “Os Estados Unidos cresceram em poder militar, cresceram em poder econômico, mas, ao mesmo tempo, por mais paradoxal que possa parecer, cresceram também as resistências militares e econômicas em relação à ação norte-americana”, pontua. “Há um outro mundo que não depende dos Estados Unidos.”

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Gia Matheus Almeida

|

Newsletter