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Polymarket: como plataforma de apostas banida no Brasil alavanca Flávio Bolsonaro

Jornalista Jennifer Mendonça explica o funcionamento da engrenagem do mercado preditivo e seus riscos para a democracia

Crédito: SAMUEL BOIVIN / NURPHOTO / NURPHOTO VIA AFP
The Polymarket logo is displayed on a smartphone screen with a betting chart curve in the background, in Creteil, France, on July 20, 2026, as France has ordered a complete block on access to the prediction market platform, deeming that it offers gambling and betting services unauthorized under French law. (Photo by Samuel Boivin/NurPhoto) (Photo by Samuel Boivin / NurPhoto via AFP) | Crédito: Crédito: SAMUEL BOIVIN / NURPHOTO / NURPHOTO VIA AFP

Imagine uma plataforma de aposta, parecida com as bets esportivas, na qual é possível apostar praticamente qualquer coisa, inclusive resultado de eleição. É assim que funciona o mercado preditivo, operado por plataformas como Polymarket e Kalshi.

Negócios do tipo já eram proibidos no Brasil antes mesmo da Medida Provisória (MP) que acabou com as bets, anunciada pelo governo Lula na última sexta-feira (25). Ainda assim, disponibilizam no exterior apostas sobre a eleição presidencial. O candidato que aparece como favorito é Flávio Bolsonaro.

Essas plataformas funcionam na base da especulação. Mas posts patrocinados em redes sociais mostram a aposta divulgada como se fosse pesquisa eleitoral e levantam até suspeitas de interferência estrangeira.

Ao BdF Entrevista, a jornalista Jeniffer Mendonça, repórter do Núcleo Jornalismo e uma das autoras de uma série sobre o mercado preditivo nas eleições, explica que uma engrenagem utiliza publicações cruzadas em perfis de fofoca e influenciadores digitais para burlar restrições sem sinalizar a existência de publicidade paga.

“É uma falta de transparência muito grande sobre como elas funcionam. Você vê os gráficos ali de uma aposta, por exemplo, na eleição do Flávio e do Lula. Você não sabe exatamente quem está apostando, o quanto de volume de dinheiro está sendo depositado ali. Aquilo não representa de fato uma visão do eleitorado, e sim o quanto as pessoas estão apostando em volume de dinheiro. Então, você não tem como dizer que aquela porcentagem representa pessoas que têm interesse legítimo na eleição de uma pessoa, e sim pessoas que estão pensando se aquele desfecho vai acontecer e o quanto eu vou lucrar com isso”, afirma.

Ou seja, diferente das pesquisas eleitorais, que exigem rigor metodológico, amostragem representativa e registro na Justiça Eleitoral, os gráficos do mercado preditivo mostram apenas o volume financeiro apostado por um grupo restrito de pessoas, inclusive investidores estrangeiros sem qualquer vínculo com o país. “As pessoas podem se confundir com aquele resultado e se sentir influenciadas por isso”, pontua.

A sofisticação do esquema também envolve suspeitas de interferência internacional e direcionamento político, com vínculos entre a Polymarket e figuras da extrema direita estadunidense, como Donald Trump, além do impulsionamento por perfis estrangeiros e do uso constante das métricas por políticos brasileiros nas redes sociais. “A gente viu isso nas eleições da Colômbia, em que o candidato Abelardo da Espriella, que venceu as eleições, utilizou muito o Polimarket como fonte de pesquisa eleitoral. A gente percebe que, na América Latina, isso tem se disseminado de uma maneira muito grande”, analisa a repórter, que também alerta para os perigos da cobertura acrítica desses dados pela imprensa. “Falta muita criticidade na divulgação dessas informações. Acho que a gente não deveria estar divulgando essas porcentagens, porque as pessoas vão ler só o título, não vão ler matéria mais hoje em dia. Então, elas vão ficar presas naquela informação ali que vai estar contextualizada dentro, mas talvez a forma como chegou nela não vai estar”, argumenta.

Apesar de narrativas de oposição alegarem perseguição governamental, Jeniffer Mendonça esclarece que a recente suspensão de páginas da plataforma Polimarket no Brasil foi fruto direto de denúncias do jornalismo investigativo que chegaram à Advocacia-Geral da União (AGU). “Não foi algo que a campanha do Lula fez, foi uma denúncia de jornalismo mesmo, que se empenhou em mostrar essas incongruências e esses riscos também, e que gerou essa derrubada da página”, pontua a jornalista.

Mendonça considera que o avanço dos mercados preditivos representa um risco à própria integridade democrática, ao tentar substituir a vontade do eleitorado pela capacidade financeira de especuladores. Para a repórter, a proliferação dessas ferramentas invisibiliza populações vulneráveis e reduz o debate público a meros jogos de azar, exigindo maior responsabilidade ética das big techs e dos veículos de comunicação. “A gente não faz democracia com base em volumes de dinheiro apostados. A gente faz democracia com participação popular, de fato”, conclui Jeniffer Mendonça.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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