Embora a relação entre Brasil e Haiti seja antiga, esse é um país comumente invisibilizado pela mídia comercial. Na maior parte das vezes, quando é retratado, sua imagem acaba sendo negativa, ligada a pautas de pobreza e violência.
Cha Dafol, correspondente do Brasil de Fato no Haiti, vive no município de Pignon, perto de Cabo Haitiano, no departamento Norte. Ao BdF Entrevista, ela explica que a região é muito impactada pela violência urbana e pela ausência de eleições, que não ocorrem desde 2016. Pignon é uma área rural, mais distante da capital Porto Príncipe; contudo, a tecnologia e a vivência no território auxiliam a realização da cobertura jornalística. “O simples fato de estar no Haiti, de ver as coisas que estão acontecendo, de poder conversar com a população, de poder sentir o que as pessoas pensam, já é um valor agregado”, avalia.
“A maioria das próprias agências não passa notícias para as grandes mídias do mundo. E, quando falam, é só para falar de violência, de mortes, de massacres”, critica.
Dafol relata que, atualmente, o país vive dois problemas principais e que acabam conectados: a ação de gangues armadas e a paralisia das estruturas estatais, com um governo de transição imposto e que vem sendo sustentado com forte ingerência dos Estados Unidos, mas ela busca equilibrar isso nas produções de notícia.
“Precisamos falar da violência que está acontecendo, precisamos falar da situação do país, que está terrível, mas a gente não pode falar sobre isso sem explicar, sem trazer o que nos trouxe a isso, quais foram as causas históricas, políticas e geopolíticas que levaram a essa situação no Haiti”, afirma.
Cha Dafol destaca que existe, no DNA do povo haitiano, uma história de luta, resiliência e solidariedade, que faz, inclusive, com que a própria sociedade, diante da ausência de um Estado que garanta condições mínimas de vida, consiga se organizar para sobreviver.
“A gente está num país onde praticamente não tem Estado. E mesmo assim, é um país que está funcionando de algum jeito”, afirma, ressaltando a capacidade de organização camponesa. “O Haiti é um país capaz. A população haitiana tem todo direito, tem todo mérito de conseguir acessar a soberania”, defende. “O Haiti não é um país pobre; o Haiti é um país empobrecido por potências internacionais.”
A jornalista conta que a ingerência externa também se dá no aspecto prático, com o encorajamento do armamento dessas gangues, uma vez que boa parte do armamento bélico é fornecido pelos EUA e entra ilegalmente no país, especialmente por meio da Flórida.
Ela também relata que a Minustah, missão da ONU realizada pelo Exército brasileiro e marcada por uma série de violações, deixou marcas profundas no país. “Por sorte, o Brasil tem o futebol. Os haitianos gostam muito de futebol e sempre torcem pelo Brasil. É muito impressionante, inclusive, ver como os haitianos conseguiram se distanciar e não desprezar o Brasil por causa daquilo”, afirma, ao frisar que os haitianos relacionam a Minustah mais a uma ação internacional do que propriamente brasileira.
“Ninguém vai falar bem da Minustah. Tem muito trauma com relação à Minustah. Teve muitos casos de estupros e tem muitos filhos nascidos no Haiti de países desconhecidos, e a maioria deles brasileiros. Então tem muitas, mais uma vez, feridas abertas de casos não resolvidos”, aponta, ao destacar que nunca houve reparação com relação a essas violações.
Diante do provável adiamento dos próximos processos eleitorais, movimentos populares e organizações de esquerda defendem que a superação do caos exige o fim da interferência estrangeira. Olhando para o futuro, defende Dafol, é preciso falar em pacificação sob a liderança dos próprios cidadãos e pelo fortalecimento dos grupos políticos organizados no interior.
“O que se deseja e o que se almeja é que os próprios haitianos possam se organizar, a população possa se organizar para resolver os problemas do Haiti e, primeiro, estabelecer a segurança e organizar eleições independentes, autônomas, livres, soberanas. A ideia é que o Haiti possa ser soberano para resolver a situação que a gente está enfrentando”, defende.
Confira a entrevista completa abaixo:
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

