A partir de 2027, o Congresso brasileiro terá presença forte da extrema direita. O Partido Liberal (PL), legenda da família Bolsonaro, conquistou 121 cadeiras na Câmara dos Deputados e 28 no Senado. Somado a isso, o primeiro turno terminou com Flávio Bolsonaro (PL), que teve 47% dos votos, à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que terminou com 45%.
Ao BdF Entrevista, o cientista político Paulo Niccoli Ramirez, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), faz um prognóstico pouco otimista do primeiro turno e considera que o caminho que a maioria do eleitorado escolheu indica um processo de fascistização. “Ou seja, tornar o Brasil um país fascista, com poderes autoritários e de redução da possibilidade do contrassenso da oposição”, pontua.
Ele observa que, desde a ascensão da extrema direita ao poder, em 2018, quando Jair Bolsonaro se tornou presidente, o contexto político foi se encaminhando para uma polarização repleta de irracionalidade, com muita lacração bolsonarista, muito espaço para o extremismo e pouco espaço para um debate de ideias. Nesse sentido, Ramirez considera que há um fenômeno semelhante ao analfabetismo funcional, que identifica letras, as palavras, mas não compreende o sentido.
“No Brasil, há um fascismo funcional. São pessoas que nunca vão dizer que são fascistas, mas suas atitudes, seus votos, acabam revelando que são fascistas funcionais. Não tem a menor ideia do que votaram, mesmo porque estão votando contra si mesmos”, argumenta.
Paulo Niccoli Ramirez avalia que, do ponto de vista estratégico, o bolsonarismo foi muito bem-sucedido ao conseguir com que seu eleitor compreendesse que “é preciso votar conjuntamente em todos os candidatos do PL, ou pelo menos que façam parte do espectro bolsonarista”.
O que aconteceu foi que dobradinhas para o Senado ou deputado estadual com federal deram certo. Essa estratégia passou a ser desenhada desde a derrota de Bolsonaro em 2022, quando esse grupo político começou a falar em “colonizar e ter uma supremacia no Congresso, exatamente para modificar a Constituição e outras leis que eles julgam necessárias e urgentes”.
A forma de conseguir colocar isso em prática foi, de fato, utilizar com maestria as redes sociais, os influenciadores aliados e algoritmos da Meta, a favor da extrema direita. A esquerda, observa o professor, demorou muito para virar essa chave.
“Agora que essas técnicas de usar músicas, inclusive gospel, músicas sertanejas, estão começando a ser usadas pela esquerda, precisa usar as viralizações, as curtidas, os compartilhamentos de uma maneira mais técnica, com o objetivo de expandir as mensagens a favor do Lula e a crítica ao bolsonarismo”, afirma.
“Mas não se constrói uma estratégia dessa do dia para a noite, faltando três semanas para a eleição”, pondera, ao reforçar que, para virar o jogo, a esquerda terá que operar “uma guerrilha digital”.
Ramirez analisa o uso das redes sociais como ferramenta principal de campanha e compara exemplos de votações com grande adesão dos dois lados para a Câmara dos Deputados: Lucas Pavanato (PL), em primeiro lugar no ranking dos mais votados, e Erika Hilton (Psol), que ficou na segunda posição.
“O Pavanato e outros, como Nikolas [Ferreira (PL-MG)] e a Eduarda [Campopiano (PL-SP)], usam essa estratégia [de viralizar] com discursos antidemocráticos e de disseminação de ódio contra o outro. Já Erika Hilton, que já há algum tempo usa as redes sociais, consegue falar com o seu público muito bem e expandir as fronteiras da sua imagem para além do eleitorado da esquerda”, afirma.
O cientista político avalia com certo lamento que uma figura como Pavanato tenha tido o dobro de votos de Erika Hilton. “Aí nem falando de esquerda e direita, não, só falando assim: uma pessoa que trabalha de fato com questões importantes para o Brasil, concorde você ou não com elas, e o outro que só dissemina um pânico moral”, pontua.
Cenário de horror
Caso venha a ser eleito, afirma o analista, Flávio vai subir a rampa com as mãos dadas com seu pai, ex-presidente Jair Bolsonaro, e de Daniel Vorcaro, que deverá ter as acusações todas retiradas. Além disso, aposta que o Congresso vai trabalhar pela “anistia total, geral e irrestrita” para os golpistas do 8 de janeiro.
Sobre as chamadas pautas de costumes, Ramirez avalia que o aborto será proibido em toda e qualquer circunstância e é provável algum tipo de projeto “para facilitar as igrejas evangélicas lavarem dinheiro”. Outras pautas que, segundo o professor, devem ser priorizadas no eventual governo são a redução da maioridade penal, privatização da educação e de empresas como a Petrobras, Banco do Brasil e os Correios, o fim das cotas raciais e a destruição das leis ambientais, “favorecendo o desmatamento e um processo extrativista extremamente irracional sobre as nossas riquezas naturais”, enumera.
“Há também o controle sobre os conteúdos nas escolas, cada vez mais tirando intelectuais livres, a produção de materiais sobre história, geografia, sociologia e filosofia. A tendência é que Olavo de Carvalho se torne, apesar de já morto, uma referência obrigatória, assim como documentários do Brasil Paralelo, que são distorções baseadas em fake news”, pontua. “Enfim, é o fechamento da sociedade como um todo”, completa.
Segundo Ramirez, um cenário em que Lula consiga superar Flávio também será extremamente desafiador e, reforça ele, pior do que no período que antecedeu o golpe contra a ex-presidenta Dilma Rousseff. “A gente tinha partidos de centro, como MDB, PSD, que estavam divididos, mas ainda assim você via algumas poucas figuras dos partidos de centro defendendo a Dilma, pelo menos a inconstitucionalidade do seu processo de impeachment”, pontua.
“O cenário que a gente tem hoje é pior. A bancada da bala aumentou, a bancada evangélica aumentou, a bancada bolsonarista, como um todo, que envolve todos esses grupos e muito mais, aumentou muito mais. Isso significa que, caso o Lula seja eleito, a sabotagem vai ser maior”, resume.
Confira a entrevista completa:
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

