economia

Quanto mais pobre a população, melhor para o mercado financeiro, analisa CEO João Pacífico após alta da bolsa no final do 1º turno

CEO do Grupo Gaia desmistifica a alta da bolsa e alerta para propostas bolsonaristas focadas em exploração e lucro fácil

arquivo pessoal
João Pacífico | Crédito: Arquivo pessoal

O mercado financeiro comemorou o resultado do primeiro turno das eleições, que terminou com Flávio Bolsonaro (PL) à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A bolsa de valores disparou e o dólar caiu, indicadores também anunciados com entusiasmo pela mídia comercial. Os bilionários rentistas comemoram, mas a classe trabalhadora deveria se preocupar.

Ao BdF Entrevista, João Pacífico, CEO do Grupo Gaia, esclarece que existe um mito de relacionar os resultados da bolsa de valores à saúde econômica de um país. “Não é necessariamente assim”, alerta. Pacífico explica que a bolsa de valores é um conjunto de poucas empresas grandes que negociam as suas ações, e os investidores querem que a ação valorize ao máximo. Para isso, a empresa precisa ter um lucro em constante crescimento.

“Digamos que tenha 10 empresas muito grandes e que vão aumentar o seu lucro. Isso quer dizer que a bolsa subiu. Bacana, a bolsa subiu. Mas o trabalhador, será que está bom para ele ou não? Para o acionista da empresa, é ótimo, só que a gente está falando de 0,00001% das pessoas. Isso não quer dizer que a economia está indo bem”, explica. “Não é porque meia dúzia de pessoas estão mais ricas que o país está super bem. O que o mercado financeiro quer é lucrar o máximo no curto espaço de tempo”, reforça.

O especialista em mercado financeiro observa que, enquanto o governo Lula e a classe trabalhadora lutam pelo fim da escala 6×1, a proposta de Flávio é acabar com a Justiça do Trabalho. “A população em geral quer uma aposentadoria digna, um aumento real do salário mínimo, são direitos trabalhistas estabelecidos, é não ter uma escala em que você só descansa um dia por semana”, aponta. Ele lembra que a mídia comercial é financiada por grandes empresas, que lucram na bolsa de valores.

João Pacífico também explica por que parte do empresariado e da elite econômica não vê com bons olhos políticas sociais, como, por exemplo, a valorização do salário mínimo. “Uma economia, quanto maior for o salário médio das pessoas e menor for o desemprego, mais as pessoas vão exigir remuneração para poder trabalhar. Se você tem um desemprego muito alto e uma remuneração muito baixa, a exploração está aí”, aponta.

Nesse sentido, Pacífico aponta, de forma sucinta, o que move o desejo do mercado de que o Estado seja enxuto. “O desejo deles é: Estado mínimo para que todo o dinheiro fique na iniciativa privada. Para que a iniciativa privada comande tudo. E, como eu falei antes, para o mercado financeiro, quanto mais pobre a população, infelizmente, às vezes é melhor. Porque você vai conseguir explorar mais os outros e vai sobrar mais para você”, resume.

O especialista também avalia o impacto em parte do eleitorado de baixa renda de teses como a Teologia da Prosperidade, muito em voga em determinadas denominações evangélicas, e a ação de coaches nas redes sociais, que geram um desejo de ser igual a figuras que enriqueceram, em muitos casos, enganando pessoas e vendendo cursos na internet de como ficar rico. “Você cria nas pessoas aquele desejo: ‘Ah, eu quero ser como o Primo Rico, eu quero ser como o Pablo Marçal’. Ela se projeta naquilo e, quando você começa a mostrar para ela que esse sistema não vai te permitir chegar lá, que não tem como você chegar nesse lugar, ela acha que você está atacando ela, que você está atacando o sonho dela”, argumenta.

Confira a entrevista completa:

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Gia Matheus Almeida

|

Newsletter