Com redes sociais, canais de transmissão e até o status de WhatsApp servindo como ferramenta para disputar voto, a eleição de 2026 é marcada por uso massivo de plataformas digitais tanto pela extrema direita como pela esquerda. O campo conservador, desde a eleição de Jair Bolsonaro, já navegava no universo das plataformas digitais com melhor performance do que o campo progressista, a ponto de consolidar o que hoje em dia é chamado de “partido digital”.
Ao BdF Entrevista, o pesquisador Roberto Andrés explica que a extrema direita conseguiu se organizar em um ecossistema que rompe com as estruturas rígidas dos partidos tradicionais, nos quais filiados dependiam de anos de militância prévia para obter espaço.
No modelo digital, o alcance e a capacidade de engajamento nas plataformas virtuais tornaram-se o principal critério para a projeção de candidaturas. A prova disso é a eleição de figuras como Lucas Pavanato e Eduarda Campopiano, ambos do PL, neste ano. “Se você já consegue um bom alcance nas redes, se você consegue um público seu engajado e uma boa capacidade de comunicação, você já pode ser candidato”, pontua.
Para a esquerda, o reforço chegou nesse segundo turno com o Exército do Lula, criado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG). O canal reuniu, até o momento, mais de sete milhões de pessoas, que vêm recebendo missões do parlamentar para virar voto e convencer quem não foi votar no primeiro turno a comparecer às urnas no próximo domingo (25), data do segundo turno.
“O que o André Janones está fazendo não é uma revolução de comunicação, é uma revolução de mobilização e organização. Quer dizer, como você põe a sua base para trabalhar da maneira mais efetiva possível para gerar um resultado”, explica.
As estratégias do canal do Lula se assemelham às que já eram adotadas por grupos de direita nas redes. “São pessoas que lideram esses ambientes, que de certa maneira dominam o algoritmo, têm bastante conhecimento das redes sociais, que então passam as instruções para a base para você curtir. Inclusive isso virou um meme: você tem que curtir, você tem que compartilhar, você tem que comentar, tem que jogar no aviãozinho, tem que jogar no story, tem que jogar no privado para outra pessoa, para você, de fato, influir no algoritmo e fazer com que aquele conteúdo chegue mais longe”, explica.
Ao comentar sobre a participação de Lula no debate da Band, Andrés traz dois pontos de reflexão: a falta de figuras jovens que foram eleitas, como Ana Elisa e Guilherme Cortez, ao lado de Lula. “A velha guarda precisa abrir espaço para que, de fato, esses atores estejam no front. Eles são parte dessa nova liderança. A gente tem que aprender isso com o partido digital bolsonarista”, aponta, ao destacar a presença de Pavanato, Nikolas Ferreira e Pablo Marçal, que, inclusive, tumultuaram o debate.
O outro ponto levantado pelo professor como positivo foi o desafio lançado por Lula a Flávio para que ambos abrissem o sigilo bancário e telefônico. Roberto Andrés destaca que a direita e o bolsonarismo criaram uma ideia que pegou: a de que Lula e, como consequência, o PT são corruptos, e que, nesse sentido, o presidente deu uma tacada de mestre, que gerou e vem gerando muito engajamento nas redes sociais.
Apesar do fortalecimento significativo da presença virtual, o pesquisador alerta para as limitações impostas pelas plataformas e considera que há necessidade de integrar a articulação digital às ações de mobilização nas ruas. “Acho que a questão do algoritmo, da reiteração de câmeras de eco, das bolhas algorítmicas, ela leva a grande engajamento, grande alcance, mas pouca saída da bolha de pessoas que já concordam com aquilo”, pondera.
Para superar esses obstáculos e dialogar com eleitores indecisos, é indispensável testar discursos e aprender diretamente no contato cotidiano com a população. “A gente precisa sair das redes. Cada vez que você sai da bolha e conversa com alguém diferente, você aprende”, conclui Andrés.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

